• Por Maria Shirts/29HORAS

Os humores de São Paulo

Como as pessoas, São Paulo muda seu estado de espírito a cada dia Certa vez escrevi nas redes que São Paulo é um organismo vivo. Por mais que seja feita de concreto, fios de energia, automóveis e matérias aparentemente inanimadas, a cidade segue uma lógica de corpo humano. As ruas e avenidas seriam as veias e artérias. Nós, as bactérias – alguns, os vermes. Os tantos cabos, a corrente elétrica. As marginais, o intestino grosso. E por aí vai. A viagem não para por aí.

Como todo organismo vivo, habitado por milhares de corpos estranhos e caros ao funcionamento do sistema, São Paulo revela um humor diferente a cada dia. Mesmo quem anda de carro e que, portanto, fica menos exposto aos barulhos e contatos da cidade, deve perceber isso. Tem dia que é um buzinaço só, um estresse sem tamanho. Tem dia que é mais tranquilo, gentil.

Ultimamente, tenho percebido São Paulo muito mais brava. Minha hipótese é que a polarização política foi transpassada para o trânsito, as ruas, o transporte público. A intolerância tem dominado os ambientes, o que é muito frustrante e perigoso – inclusive para a integridade de seus habitantes.É como se a ignorância fosse o único recurso.

Quem não anda de carro consegue ter uma percepção ainda mais sutil da cidade. Quem se locomove de bike, ou a pé, percebe as nuances do humor de São Paulo. Às vezes, por exemplo, ela é mais misógina do que só agressiva. Outros dias, mais carinhosa do que apenas gentil. São olhares, buzinas amigas, acenos e uma certa cumplicidade entre seus habitantes que nos faz perceber isso. É claro que ela é, também, uma projeção do nosso humor.

No dia em que o grande pensador e crítico literário Antonio Candido morreu, fui de bike para o trabalho e senti a cidade mais triste. Naquele dia, uma sexta-feira com sol de outono, agradabilíssima para quem anda na rua, não ouvi sequer uma buzina no trânsito, algo atípico para uma sexta, que costuma ser um dia tão enérgico. Não houve cumprimentos e nem muita interação entre motoristas, transeuntes, ciclistas. A cidade estava inerte. Mas talvez fosse só eu.

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