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O preconceito com o transporte coletivo

24/8/2018

Uma coluna nossa publicada ontem, dia 23, no jornal Metro, causou um alvoroço. No texto (é possível ver a edição com o texto pelo link: https://www2.metrojornal.com.br/pdf/assets/pdfs/20180823_MetroSaoPaulo.pdf?v=d), com o título "É inteligente andar de ônibus", falamos sobre a importância de usar o transporte coletivo no Brasil. E frisamos que é inteligente, sustentável, sensato, moderno e bacana usar o ônibus sim.

 

Além de privilegiar o coletivo, e não o individual, o ônibus leva muito mais pessoas do que o carro (média de 1,2 por veículo em SP) e ocupa menos espaço nas ruas. Oferece também outras vantagens, inclusive financeiras e relativas à liberdade. Você pode escrever, ler ou trabalhar dentro do ônibus, ao contrário do carro. Você salta onde quiser, aproveita muito mais a vida. E acaba se tornando menos sedentário, pois precisa caminhar mais. 

 

Vários leitores escreveram para nós, expressando suas opiniões. Para muitos, o transporte coletivo no Brasil é péssimo, inseguro e sem qualidade. Sabemos que há muito o que melhorar, mas é importante também reconhecer os pontos positivos, especialmente de São Paulo: corredores e faixas exclusivas de ônibus, veículos com wi-fi e ar condicionado e, muito importante: uma ociosidade dos ônibus fora dos horários de pico. Na região do centro expandido da capital paulista, os ônibus estão circulando vazios. 

 

No texto falamos também sobre o preconceito histórico que temos no país com o ônibus. Por causa de nossa cultura focada no carro, que vem desde o final dos anos 1950, com a implantação da indústria automobilística no governo Juscelino Kubitschek, não tivemos investimentos no transporte público durante décadas, enquanto o carro foi incensado pela mídia a objeto de status.

 

Esse modelo que prioriza e estimula o uso do automóvel, em detrimento dos transportes coletivos, só trouxe problemas. O resultado é que até hoje sofremos com os congestionamentos e com a precariedade do sistema público de transportes, além de termos nossas cidades planejadas em função do carro, e não das pessoas que vivem nelas.

 

Símbolo de liberdade exportado pelos Estados Unidos, o carro virou no Brasil um ícone de status e poder, exaltado pela publicidade, pela televisão e até pelos governantes. Isso trouxe uma grande barreira cultural, recheada de preconceitos: muitas pessoas ainda associam o uso do transporte coletivo ao fracasso econômico, um pensamento que ajuda a travar ainda mais a nossa mobilidade. Para muitos brasileiros, andar de ônibus "é coisa de pobre".

 

Para os moradores das principais capitais europeias e em alguns países desenvolvidos, o carro não é tão primordial como é para os brasileiros. Em Copenhague e Amsterdã, por exemplo, mais da metade da população usa a bicicleta para trabalhar; em Tóquio, Paris, Londres e Nova York, pessoas de diversas classes sociais priorizam diariamente o transporte coletivo e os trajetos a pé. Nesses lugares, o deslocamento é estudado, programado e orientado com políticas públicas e campanhas de educação. A mobilidade é compreendida como algo que pode influenciar a saúde dos cidadãos e das próprias cidades. E os valores da sociedade privilegiam o coletivo, não os direitos individuais, como acontece no Brasil.

 

Artistas famosos, políticos, executivos, empresários, enfim, toda a população usa normalmente o transporte público. Trata-se de uma atitude normal, do dia a dia, e que mostra a valorização do que é coletivo.

 

Portanto, vale a pena mudar nossos hábitos e pensamentos em relação ao transporte coletivo. Quanto mais gente usá-lo, mais cobranças e melhorias podem ser feitas. Uma população que não usa os seus equipamentos coletivos não exerce a cidadania e não consegue atuar em favor da coletividade, que, aliás, é o nosso bem maior. Mais coletividade e menos individualismo: este é o lema das cidades desenvolvidas, justas e sustentáveis.

 

 

 

 

 

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