• Texto e fotos de Carlos Monteiro

Carta a Caê


Caro Caetano,

Desculpe a intimidade, mas aprendi com Bethânia que lá vem o mano, eu amo Caetano. Acho que posso, até, te chamar de Caê.

Você faz aniversário hoje. Achei que a data é apropriada para te escrever.

Do alto de seus 36 anos na época, você cantou encantadoramente a Pauliceia Desvairada. Em “Sampa”, poetizou a sua mais completa tradução. A cidade que te apavorou, nos longínquos 1978, esquecidos lá no século passado, mudou, não muito, mas mudou. A feia fumaça ainda sobe, mais poderosa. Não apaga só as estrelas; às vezes tem apagado o Astro-Rei e a Lua. Apaga sonhos, apaga a luz.

Os Mutantes já não existem, ficaram nos mesmos 1978, mas Rita Lee agora faz lives, como essa que você, finalmente, fará hoje à noite com seus filhos, depois de ceder aos pedidos dos teus milhares de fãs espalhados pelo mundo.

A dura poesia concreta da esquina da São João com a Ipiranga, que tanto fez pulsar mais forte teu coração, anda entristecida. O Bar Brahma fechou. Sucumbiu à crise da pandemia.

O povo continua oprimido nas ruas e nas favelas, mas nem tudo é tão ruim assim. Há um padre de uma cristandade incrível, você deve conhecê-lo; se chama Júlio Lancellotti. Luta, diuturnamente, em socorro aos desvalidos.

Caê, permita-me discordar de você quando alude a Vininha escrevendo que “São Paulo é o túmulo do samba”. A terra da garoa tem Adoniran, que completaria 110 anos ontem e, tenho certeza, deu muitas flechadas em seu olhar e deixou saudades de sua maloca. Tem Vanzolini, sacudindo a poeira, dando a volta por cima sempre; tem Germano Mathias, que batuca como ninguém numa latinha de graxa; tem Demônios da Garoa, Quais, quais, quais, quais, quais, quais, quaiscalingudum, quaiscalingudum, quaiscalingudum... Sampa tem samba no pé também.

O sonho feliz de cidade está nas ciclofaixas de lazer. São mais de 117 quilômetros, criados em 2009, para o paulistano aproveitar aos domingos e feriados. Andaram paradas por dez meses, mas agora voltaram, desde o dia 19 de julho com nova parceria. Está na ciclovia da Marginal Pinheiros, modernizada e reinaugurada na segunda-feira, 3 de agosto. São quase 22 quilômetros de pistas modernizadas, tem vestiários, banheiros e exuberância na fauna e flora. Perdeu aquelas lombadas, que mais pareciam calombos. Ganhou vendedores credenciados, incentivados a trabalhar de forma sustentável. Ressurgiu dos poetas de campos, espaços. Modernizada nas oficinas de florestas, nos deuses da chuva.

Não só os baianos, mas toda a gente pôde ter mais mobilidade nestes 42 anos. A cidade ganhou quatro novas linhas de Metrô e um monotrilho. São, exatos, 92 quilômetros cruzando-a em todas as direções.

A Paulista, meu caro Velô, agora fecha aos domingos. Dá lugar ao divertimento dos paulistanos. Saem os automóveis e entra a descontração. É, assim, uma espécie de Babel cultural para todas as tribos e todos os gostos. Pulsa vibrante diante do que tem a força da grana que ergue e destrói coisas belas.

Caetano, o professor Pasquale, um “paulistano” de Guaratinguetá, apaixonado pela língua portuguesa e conhecedor dela como ninguém, expressa muito bem a facilidade que você tem em trafegar entre o erudito e o popular na língua efetiva, no que só posso concordar em gênero, número e grau; Narciso achar feio o que não é espelho é de uma genialidade ímpar.

Pois é, nada do que não era antes pode ter mudado. E à mente apavora o que ainda não é mesmo velho do alto de seus 465 anos.

Confesso a você: realmente alguma coisa acontece no meu coração quando desembarco em Congonhas. Você tem toda razão; São Paulo é o avesso do avesso do avesso do avesso.

São Paulo e os paulistanos receberam esse teu presente majestoso!

Parabéns, toda feliz(cidade) do mundo! Te presenteio com um poema do nosso ilustre poeta Mário de Andrade: “São Paulo! comoção da minha vida…/Os meus amores são flores feitas de original…/Arlequinal!… Traje de losangos…/Cinza e Ouro…/Luz e bruma…/Forno e inverno morno…/Elegâncias sutis sem escândalos, sem ciúmes…”.

Você traduziu Sampa como ninguém.

Abraços fraternos.

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