• Por Darlene Dalto

Empreendedor sustentável


Apenas um dia. Na verdade, bem menos do que 24 horas. Aos seis, sete anos de idade o catarinense Daniel Kohntopp da Silva decidiu que iria aprender a andar de bicicleta. Sozinho. E em apenas um dia. Teimosia pura. Não havia outro motivo. Ele já tinha tentado em outras, claro. Mas aquela era toda sua, presente de Natal. Novinha, verde escura, ele lembra bem. Logo cedo pegou a bike e foi para rua deserta, sem saída, sem movimento, em frente de casa em Joinville, onde nasceu e morava. Caiu e se levantou, caiu e se levantou, bateu no muro um sem número de vezes, foi parar no poste... Felizmente não se machucou, não desistiu e só saiu de lá no final do dia, não sem antes chamar toda a família, os pais Sandra e Alvim e o irmão mais velho Davi, para ver sua proeza. Uma alegria só.

Aprender a pedalar daquela forma foi definitivo para Daniel, hoje com 30 anos, se transformar no jovem empresário que se tornou. Muito cedo ganhou uma autonomia que só é possível fora das grandes cidades, passou a ir pedalando para a escola, uns três quilômetros longe de casa, e formou uma turma de amigos que o acompanha até hoje: Yan Guirguis Kleis, Leandro Schulze e Samuel Brunken são alguns deles, hoje espalhados pelo mundo entre o Brasil, a Alemanha e o Canadá. Com eles, durante a adolescência, fez muitas trilhas e construiu rampas nas calçadas da vizinhança. A bike o ensinou a enxergar o mundo de uma maneira especial, com senso de comunidade, valorizando as amizades e o cuidado com o próximo.

Aos onze anos, em Joinville

Daniel (de camiseta laranja) e amigos da bike na fase da pré-adolescência

A faculdade de Turismo e Hotelaria foi feita em Balneário Camboriú e o seu trabalho de conclusão de curso, um plano de marketing para uma agência de ecoturismo, o levou a São Paulo, onde acabou conseguindo um emprego no hotel Hilton. A imensa diferença entre as duas cidades não o intimidou e ele continuou a usar a bicicleta em São Paulo da mesma forma que usava em Joinville. Fazia os oito quilômetros que separavam sua casa na região da avenida Paulista do emprego na Marginal Pinheiros sobre duas rodas. Com muito mais cuidado, é verdade, porque se o horário de entrada o ajudava, cinco da tarde, o horário de saída era complicado, uma da manhã.

Foi nessa época que o empreendedor começou a nascer. Ele usava a bike para fazer tudo, banco, mercado, passeios... E o maior impeditivo era encontrar lugares para estacionar a bicicleta. Era 2011. Simplesmente não havia. Os estacionamentos de carro não aceitavam seu veículo e ele não queria deixá-lo amarrado a um poste para não correr o risco de roubo. Muitas vezes acabava convencendo o funcionário, mas levava uns 15 minutos, não era o ideal, perdia muito tempo. Conversando com seus colegas no trabalho, eles tinham a mesma dificuldade. Era uma oportunidade: quantas empresas nasceram a partir de uma necessidade pessoal?

Na ciclovia da Paulista

Daniel começou a formatar a Bike & Park, pioneira no estacionamento de bicicletas em São Paulo, lançada em dezembro do ano passado com o apoio da aceleradora Doc 88, um braço da Comerc Energia. Foram erros e acertos até o formato atual, que fosse viável financeiramente e tivesse um custo baixo para o seu público alvo. Em uma frase, a Bike and Park são estacionamentos para bicicletas com seguro que funcionam em estacionamentos de carros conveniados. No começo eram com cinco pontos, hoje são 13 na zona central e no chamado centro expandido e a ideia é que até o final do ano, mesmo com a pandemia, esse número chegue a 20, 25 com sorte. Para saber todos os endereços e detalhes do seu funcionamento acesse www.bikeandpark.com.br

A sinalização da Bike & Park nos estacionamentos parceiros

O baque da pandemia, aliás, fez a empresa apontar para um novo e público: os ciclistas que trabalham para os aplicativos de entregas, trabalhadores importantíssimos na linha de frente. “Logo quisemos entender as suas dificuldades e entender como a Bike & Park poderia ser mais útil para eles. Uma das mudanças que fizemos foi em relação ao preço da nossa assinatura. Baixamos os valores e oferecemos o primeiro mês de graça para que nossos clientes possam testar o serviço”, explica Daniel. Um dos próximos passos é integrar a B&P a outros modais, como o metrô. “Estamos procurando estacionamentos ao lado de estações do metrô para que os usuários possam vir de ônibus de suas casas até as estações e de lá pegar suas bikes em um dos nossos estacionamentos”, diz. Nos próximos dias esse novo serviço já estará disponível no metrô Butantã, no começo de setembro, em Santana, e dentro de uns dois meses, na Vila Leopoldina.

O app da B&P foi criado para facilitar a vida do ciclista

Embora o mundo esteja girando em marcha lenta, Daniel não tem dúvida de que escolheu um segmento absolutamente promissor, mesmo em cidades como São Paulo, mesmo no Brasil, onde os prefeitos em geral não investem como deveriam para ampliar o número de bicicletas nas ruas. “As bikes são um meio de transporte sustentável, não poluem o ar, são silenciosas, promovem a saúde, oxigenam o cérebro, evitam o stress... E, diante do trânsito intenso, dos congestionamentos, são mais ágeis: eu moro no Alto do Ipiranga e meu escritório fica na Vila Olímpia. São 11 quilômetros. Pedalando eu chego normalmente em 35 minutos. De carro levava mais de uma hora, uma hora e 10”, conta. Ele também a usa para passeios nos fins de semana: ou faz trilhas na Serra do Japi, nos arredores de Jundiaí, para onde vai com frequência visitar os parentes de sua mulher Larissa, ou vai para o centro de São Paulo, descobrir recantos, rever a arquitetura que conta a história da cidade. “Usando a bicicleta como meio de transporte, sei dos novos comércios pelo caminho, sei quais fecharam. Conheço a cidade melhor do que muitos que nasceram aqui”, garante.

São Paulo, uma pena, não aproveitou a pandemia para se transformar em Amsterdã. “O brasileiro adora um carro, ele é símbolo de status e o governo dá incentivos para as grandes montadoras, que geram milhares de empregos”, ele analisa. “Mas acredito que um dia as pessoas vão acabar trocando quatro por duas rodas. Ou deixando os carros em casa para usar mais ônibus e metrô, como fazem quando viajam ao exterior”, acredita. Para incentivar essa troca, há cinco anos ele se tornou Bike Anjo – colabora com os novos ciclistas criando rotas que os mandam

do ponto A para o ponto B de uma forma mais segura e rápida.

Aquele primeiro contato na infância entre Daniel e sua bike novinha, verde escura, presente de Natal, foi determinante para a sua vida. Pelo menos até agora. Alguém me disse que Joinville, há 520 quilômetros de São Paulo, é conhecida como "A Cidade das Bicicletas". Quem diria?

Vida de Bike é uma parceria do Pro Coletivo e Bike Anjo

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