• Por Darlene Dalto

Uma bicicleta no coração


Você pode até conhecer alguém tão apaixonada e tão encantada com uma bicicleta quanto a publicitária paulistana Silvia Ballan. Não mais do que ela.

Quando tinha quatro, cinco anos, no Dia das Crianças, ela ganhou de surpresa sua primeira bicicletinha, presente de sua mãe Helena e do seu pai Nelson, médico pediatra. Ela se lembra bem, como se fosse hoje: era uma Caloi dobrável, cor de vinho, rodinhas extras na traseira. Os fins de semana que se seguiram foram todos no campus da USP – Universidade de São Paulo –, onde há muito espaço livre, próprio para quem quer aprender a andar sobre duas rodas. Os pais dando o maior apoio, ela não demorou para se equilibrar sozinha.

Pouco tempo depois sua família passou a ir para o interior de São Paulo, para uma cidadezinha chamada Mailasqui, ao lado de São Roque, onde tinha uma casa. E foi ali, pelas ruas de terra do lugarejo simples e tranquilo, em meio a plantações de alcachofra, que Silvia cresceu e, entre tombos e machucados, aprendeu muito cedo que aquela bicicleta significava liberdade. Foi lá também onde levou seu primeiro tombo mais feio: empolgada, sem tanta experiência, acabou usando demais o freio da frente e... capotou, voou, se ralou toda, foi para casa chorando. Mas no dia seguinte, cheia de curativos, como se nada tivesse acontecido, estava na rua de novo, ela e sua Caloi decorada com fitinhas coloridas. Às vezes amarrava no bagageiro uma caixinha de uvas vazia e colocava nela os brigadeiros de barro que fazia para vender na vizinhança. Em outras, ia com os amiguinhos até um riacho e pescavam peixinhos, que logo eram devolvidos para a água.

Silvia com sua primeira filha, Bia, em 1999

Com 15 anos pediu tão insistentemente que conseguiu a permissão de seu pai para poder andar pelas ruas do bairro. Ela sempre morou no Itaim Bibi, que é perto do parque do Ibirapuera. Uma sorte e tanto porque esse maravilhoso cenário verde acabou praticamente parte do seu quintal. Quando não estava por ali, estava na casa dos amigos ou no clube. Suas amigas, preguiçosas, como ela mesma disse, preferiam a sua garupa. Quando iam, porque houve época em que elas preferiam ir ao cabeleireiro, fazer as unhas, escovas... Não Silvia! “Achava que era a maior perda de tempo. Eu queria me divertir”, contou. Ela evidentemente preferia descobrir outros bairros sozinha ou com os amigos, os cabelos embaraçados, o joelho eventualmente machucado, a roupa volta e meia suja de graxa. Com o tempo até aprendeu a fazer pequenos consertos: sabe regular o freio e a corrente, por exemplo. Mas não sabe trocar o pneu. “Sempre que precisava, um amigo trocava pra mim. É difícil tirar o pneu da roda, colocar a câmara direito. Acabei não aprendendo”.

Na adolescência havia apenas uma restrição: às sete deveria estar em casa para o jantar. E sempre estava. Vendo o entusiasmo da filha, seu pai resolveu comprar uma bicicleta mais resistente para os seus passeios e lhe deu uma mountain bike Caloi Montana, que foi roubada e prontamente substituída. Depois vieram uma japonesa Nishiki, uma alemã sem marca, presente da amiga querida Evelyn, duas urbanas, uma Sense Movie, a outra Sense Active, e uma Dahon dobrável. E, acredite, ela as usa todas! E explica: “Uma serve para passeios, outra para ir ao mercado ou para viajar, uma é só para emprestar...”. Curiosamente nunca deu nomes para elas. Apenas a alemã que ganhou tem um nome, Germana, dado pela amiga, que ela respeita até hoje.

Com a filha Nina na porta da escola, em 2014

Olhando para trás, Silvia, criança, claro, não poderia imaginar o quão importante e definitivo aquele presente inesperado se tornaria. Foi mesmo um divisor de águas. Porque a partir daquele dia ela começou a construir uma relação com as suas bicicletas que praticamente guiou algumas das decisões mais importantes na vida. Andar sobre duas rodas se transformou – e é assim até hoje – em um modo de vida. A bicicleta é e sempre foi seu principal meio de transporte, embora também ande a pé, de ônibus, de metrô. Ela leva a sua bike – ou é a bike que a leva? – rigorosamente para todos os cantos. Todos os dias. Elas têm uma deliciosa relação de dependência uma com a outra. Saudabilíssima. “Minha relação com a bicicleta tem a ver com autonomia, independência, praticidade, agilidade, diversão, liberdade. Embora more em uma cidade como São Paulo, consigo fazer mil coisas por dia. A bike torna a minha vida mais fácil, mais simples, mais econômica”, conta. E também sustentável. Como começou há décadas, ela não adivinharia que pedalar se transformaria em uma atitude verde. Afinal, a bike não usa gasolina, não polui o ar, não produz engarrafamentos, é silenciosa... “Me tornar sustentável acabou sendo mais uma ótima e bem-vinda consequência”.

Com Nina na EBA, Escola Bike Anjo, em 2014, foto de Carlos Crow

São quase 40 anos de pedal. Um pedal cuidadoso e mais ainda depois que se casou e teve duas filhas, Bia e Nina. Ambas gostam de bicicleta, não tanto quanto a mãe, que fez questão de ensinar às duas. “Bia aprendeu em uma rua bem tranquila em uma vilinha na Vila Olímpia, onde morávamos. Nina aprendeu na Praça dos Arcos, entre as avenidas Paulista e Angélica e a rua da Consolação. Adorava fazer isso. Adorava passar adiante o que meus pais tinham me ensinado com tanto carinho e paciência”, lembra. E também não faltou incentivo: Silvia sempre as levou para a escola de bike. Todas usando um bom capacete.

Mãe e filha pedalando na chuva, em foto de Emiliano Martins

Esse vai e vem com as filhas na garupa se transformou em um blog chamado Silvia e Nina. Ela não tem escrito mais, a filha cresceu. Mas deve voltar. Ali contava sobre o seu dia a dia, fazia reflexões, divulgava ações, falava sobre suas viagens e até sobre receitas de bolo. Também escreveu sobre bicicletários, muitos dos quais, pelo bairro, foi ela mesma quem conseguiu implantar. “Costumo fazer compras em um hortifruti na rua Tabapuã e ali não havia um lugar adequado para estacionar. Fui conversando com um funcionário, com outro, falei com o gerente e consegui que eles implantassem um bicicletário ali”, lembra. E esse não foi o único. Sem querer foi nascendo uma ativista. Ela conheceu o Bike Anjo e começou a participar do grupo. Através do blog descobriu um mundo de gente que adora duas rodas, fez contatos dentro e fora do Brasil. Esteve em quase todos os Fóruns Mundiais da Bicicleta, que este ano aconteceria em Katmandu, na Índia. Por causa da pandemia o evento será online.

A dupla em momento fashion, com muito estilo e afinidade, foto de Ivson Miranda

No Largo da Batata, em 2013, fotografadas por Renata Winkler

Em 2018, a caminho da escola de Nina

Todo esse amor é devidamente aprovado pelas filhas. Ou, como diz Bia, 21 anos: “Acho inspirador o que a minha mãe faz. Ela é super engajada em mobilidade urbana. Não podia ser mais orgulhosa”. E Nina, 13: “É bem legal que minha mãe use a bicicleta como meio de transporte. Sempre preferi ir para a escola na garupa. De carro demorava muito. Na garupa era mais divertido, a gente chegava mais rápido e ainda ia conversando o tempo todo pelo caminho”. Depois de conversar com Silvia fiquei encantada com ela e com a sua paixão pelo cicloativismo, que lhe proporciona uma vida deliciosamente tranquila mesmo em uma cidade como São Paulo. É um paradoxo, mas ela tem uma vida (quase) lúdica nessa metrópole. E, melhor ainda, tem o apoio irrestrito e carinhoso das duas filhotas.

No trânsito de São Paulo em 2019

Vida de Bike é uma parceria do Pro Coletivo e Bike Anjo

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