• Por Darlene Dalto

Dr. em saúde e sustentabilidade


Ano que vem o médico Paulo Saldiva, 66 anos, um dos mais importantes patologistas do país, professor da FMUSP (Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo), completa nada menos do que 50 anos de pedal. Número impressionante em qualquer lugar do mundo, mais ainda em São Paulo, uma cidade deliciosa em vários aspectos, mas pouco amistosa em relação às bicicletas porque é poluída, tem trânsito pesado, motoristas estressados e conta com a falta de sensibilidade dos nossos governantes, que ainda privilegiam os carros. Ainda assim, ele se manteve firme pedalando diariamente coisa de 30 km em média. 200 km por semana.

Em frente à Faculdade de Medicina da USP, em foto de Bruno Fernandes (Superinteressante)

Sua primeira bike ele ganhou do pai, nem precisou pedir. Tinha cinco anos e depois de ouvir atento os conselhos paternos, foi andando devagar no quintal de casa, tirou as rodinhas, levou pequenos tombos, mas aprendeu. Para sempre. Sua família morava perto do parque do Ibirapuera, ele rodava a vizinhança toda. Quando entrou na Faculdade de Medicina da USP aos 17 anos, decidiu que faria o trajeto de casa para a escola – e vice-versa – sobre duas rodas. Aquela magrela seria seu meio de transporte. Logo começou a viajar com ela, sozinho em geral porque, naquela época, andar de bicicleta além de um passeio no parque no final de semana era uma excentricidade: foi de Ubatuba a Angra dos Reis, cidades litorâneas em São Paulo e Rio de Janeiro, respectivamente, rodou muito por Campos do Jordão, na Serra da Mantiqueira.

Com a bike ao fundo e de gravata borboleta, que ele adora usar, foto da ComCiência

Esse quê de excentricidade, aliás, o acompanhou por muito tempo e lhe rendeu pelo menos duas boas histórias. Quando já era professor da faculdade, uma secretária, entre cuidadosa e bisbilhoteira, lhe deu um conselho: que ele comprasse um carro para vir trabalhar porque não ficava bem um professor ficar por aí andando de bicicleta. Não pegava bem. Em outra ocasião, uma compaixão excessiva e fora de lugar se abateu sobre uma de suas alunas da pós-graduação, uma senhora nordestina. Sem avisá-lo, de surpresa, ela lhe deu um carro, aliás, um carrão, de presente, um Monza, ele lembra bem, imaginando que o professor usava a bicicleta porque não podia comprar um meio de transporte melhor. Ele evidentemente não aceitou, nem a mulher o entendeu.

Nesse quase meio século de bicicleta, apenas um acidente sério, uma queda a 10km/h na ciclovia da avenida Faria Lima, uma das principais avenidas da cidade, sob chuva. Freou por causa de um pedestre, a bike escorregou, ele foi ao chão e machucou sério o joelho direito. Recuperado, voltou a pedalar.

Um flagrante da avenida Paulista feito por Saldiva

Curiosamente, Paulo nunca encarou sua bicicleta como um esporte. Ele remou, jogou rúgbi, chegou à faixa preta de judô, mas nunca se considerou um ciclista. E nunca pedalou fora do Brasil – sua mulher Silvia não costuma andar de bike, eles fazem outros programas. Em compensação, nessas quase cinco décadas, descobriu detalhes de São Paulo que pouquíssimos paulistanos conhecem. Nos arredores do Ibirapuera, em todos os cantinhos do centro velho, da avenida Paulista, do Bexiga, o bairro onde mora hoje, dos morros no Pacaembu... E aproveitou muitos desses passeios para fotografar pessoas, natureza e arquitetura. “São Paulo é feia, mas tem personalidade. E passear de bicicleta me dá outra perspectiva sobre ela, me dá a chance de acompanhar suas mudanças, de rever minha infância, minha adolescência. E são sempre lembranças lúdicas”, diz. Essas fotos depois ele posta no Facebook. São lindas.

Foto feita pelo médico da janela de sua casa

A lua cheia posou para Saldiva em maio desse ano

Da janela do ônibus, Saldiva contempla o final de tarde na avenida 9 de Julho

Mais uma de suas belas fotos, que ele gosta de compartilhar com amigos no Facebook

Esta imagem ele fez durante uma caminhada na Paulista em um domingo

Outra obra inspirada desse médico que é também um poeta da cidade de São Paulo

Em cinco décadas, foram poucas as suas bicicletas. Elas duram com ele. Uma das primeiras foi uma Monark Olímpica 60, aro 28, em homenagem à Olimpíada de 1960. Uma parceria que durou 30 anos. E foi a única que teve um nome – talvez não o melhor: Jabiraca. Hoje Paulo tem duas, uma Easy Rider da Caloi, modelo urbano, e uma elétrica Sense, que ganhou da mulher Silvia depois do único acidente.

Em tempos de pandemia, na linha de frente do combate à doença, ele acredita firmemente que o século 21 será o século da bicicleta, do transporte ativo. Pode demorar um pouquinho, sim, mas pedalar deixou de ser excêntrico e as lojas nunca venderam como hoje. “Acredito que a mudança demore uma ou duas gerações, mas já avançamos muito”, garante. Carros elétricos? Não é a solução que a maioria imagina. “Se você imaginar um patinete elétrico, ele tem uma pegada de carbono muito maior do que um ônibus elétrico, por exemplo. Aquela bateria conduz apenas uma pessoa e dura apenas dois anos. Um ônibus tira 300, 400 carros da rua, transporta mais de mil pessoas por dia e dura 20 anos. Sem falar que o ciclista, embora ande no meio do tráfego, ele fica menos exposto à poluição porque se move mais rápido do que os carros e pode escolher caminhos mais saudáveis. O motorista de carro acaba ficando horas no trânsito, exposto à poluição, sem ter para onde ir. E estressado”, explica.

Dom Quixote de la Mancha ciclista, um símbolo de esperança

Paulo, em cima de nada menos do que 50 anos de farta experiência, tem certeza de que em algum momento as pessoas vão compreender os inúmeros ganhos que a rotina de andar diariamente sobre duas horas, como meio de transporte, proporciona: bem-estar, saúde, um ar menos poluído, menos poluição sonora, economia de tempo e de dinheiro... Além da deliciosa sensação de ser livre. Esta, inestimável.

Vida de Bike é uma parceria do Pro Coletivo e Bike Anjo

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