• Chantal Brissac

"Desmobilidade” é a palavra da vez


No dia 26 de janeiro, o convidado especial para o Conversas São Conexões, do site São Paulo São, foi o cientista franco-colombiano Carlos Moreno (na foto acima, pedalando em Paris), da Universidade Paris 1 Panthéon Sorbonne. Criador do conceito "Cidade de 15 minutos" e assessor especial de Anne Hidalgo, prefeita de Paris, Moreno é uma das principais vozes internacionais do urbanismo sustentável e da mobilidade ativa.


A live, mediada por Mauricio Machado, fundador do São Paulo São, também contou com a presença de Nabil Bonduki, arquiteto e urbanista, relator do novo plano diretor de São Paulo; Chantal Brissac, jornalista e publicitária, fundadora do Pro Coletivo e parceira da iniciativa São Conexões; Ana Paula Wickert, arquiteta e urbanista do ArqAtualiza e ex-Secretária de Planejamento de Passo Fundo; e Marcos de Oliveira Costa, arquiteto, coordenador e docente do curso de Arquitetura e Urbanismo da FAAP-SP.


Carlos Moreno falou sobre o seu conceito, que está se tornando conhecido no mundo todo, com a implementação de cidades descentralizadas, e revelou como iniciou o seu grande trabalho com Anne Hidalgo, prefeita de Paris. “Esta ideia vem se consolidando na capital francesa desde o primeiro Acordo de Paris em 2015, quando houve as negociações internacionais para diminuir 40% das emissões de CO2 em dez anos e chegar à neutralidade de carbono em 2050, o principal compromisso para frear o aquecimento global no mundo. Milhares de integrantes de 195 países se reuniram para refletir como as cidades iriam se comprometer com o clima, reduzindo o impacto ambiental do transporte, maior fonte de emissões de CO2”.

Anne Hidalgo, prefeita de Paris


Nesse importante encontro ficou claro para o cientista o que é mais urgente fazer. “E aí eu me perguntei: se queremos diminuir os transportes em vez de pensar em mais energia e mais transporte, por que temos que transportar tanto? Por que nos movemos tanto? Por que passamos tanto tempo, de norte a sul e de leste a oeste, uma hora na ida e outra na volta, às vezes muito mais, no trânsito? A resposta é que, em vez de investirmos em uma mobilidade mais intensa, vamos fazer um projeto de desmobilidade. Uma desmobilidade que incremente a qualidade de vida para oferecer mais tempo útil, social, pessoal, ecológico, com menos CO2! Recuperar o tempo é um ato hoje em dia importante, porque o capitalismo moderno está preocupado, desde que o Taylorismo nasceu, em contar o tempo e os segundos para todas as tarefas dos trabalhadores, convertendo a vida em uma existência completamente cronometrada”.

Rue de Rivoli, na capital francesa


Moreno, que defende o conceito da Cidade de 15 Minutos desde 2008, tornou-se conselheiro de mobilidade de Paris em 2015 e vem trabalhando com Anne Hidalgo desde então – a prefeita se reelegeu com essa plataforma em junho de 2020. “Ela queria propor um modelo de cidade policêntrica, equilibrada, com mais solidariedade, diversidade, ecologia, participação das pessoas e melhor utilização dos recursos. Paris está muito fraturada, como outras grandes cidades. Quando chegou a pandemia, em março, novos desafios surgiram, mas foi e está sendo possível instituir um grande projeto para reduzir a poluição, priorizar espaços para pedestres e ciclistas e transformar Paris em uma cidade mais saudável, acolhedora e sustentável”.

Esse trabalho, que envolve conversão de estacionamentos para carros em espaços para ciclistas e pedestres e outras medidas para motivar a mobilidade ativa, como compartilhamento de bicicletas e modais elétricos, tem como objetivo revitalizar os bairros, o comércio local, a cultura de cada região, as hortas e os jardins urbanos, com oferta de serviços educativos, de saúde, de cultura e meio ambiente.



O conceito da cidade descentralizada em ilustrações - Imagens (acima e abaixo) Paris en Common


Além de Paris, Carlos Moreno está trabalhando para implantar o conceito em Londres, Irlanda, Dublin, Milão, Edimburgo e Bogotá, entre outras cidades: “É preciso adaptar o projeto de acordo com as características de cada metrópole”.


Relator do novo plano diretor, o urbanista e arquiteto Nabil Bonduki observou que o conceito é muito interessante e pode inspirar boas mudanças em São Paulo, uma cidade absolutamente centralizada e com grandes dificuldades de urbanização e mobilidade. “O município conta com 12 milhões de habitantes e o centro expandido, que tem 20% da população do município, concentra cerca de 70% do emprego”, ele ressaltou. Uma cidade típica de movimentos pendulares, das zonas periféricas para o centro expandido, um cenário que torna a vida das pessoas difícil e insalubre, com perda de mais de duas horas por dia nos deslocamentos.

O arquiteto e urbanista Nabil Bonduki


“O objetivo do plano diretor de São Paulo é criar polos de desenvolvimento econômico nas periferias, combatendo os imóveis luxuosos subutilizados, as antigas áreas industriais, e trazendo a moradia próxima do emprego”, disse Nabil, comentando que a capital paulista, com toda sua complexidade, se chegar a se tornar uma cidade de 30 ou 45 minutos já será um grande avanço. “Os desafios são trazer mais moradia para as áreas mais bem servidas de emprego e reduzir a desigualdade”.


Em resposta à pergunta da arquiteta Ana Paula Wickert, que indagou Moreno sobre a implantação do conceito em cidades menores e com problemas específicos, o cientista esclareceu que construiu uma metodologia que permite trabalhar em cidades distintas e em lugares como a América Latina e países da África. “A metodologia, com ferramentas e plataforma digital, traz a possibilidade de fazer uma espécie de fotografia da cidade, e registrar, a partir de uma cartografia, os elementos disponíveis, classificando-os, projetando-os e organizando assim o processo de transformação”.


“Fazer uma cidade de 15 minutos é um projeto de longo prazo e que deve criar a interconexão de todos os envolvidos, trata-se de um processo participativo e que permite que os cidadãos possam se motivar e contribuir para realizar o que consideram importante para suas vidas. É a chamada inteligência coletiva, que une pessoas de todas as idades, e especialmente os jovens, que são muito sensíveis às novas tecnologias e também às questões climáticas”, disse Moreno. Algumas cidades europeias, como Copenhague e Amsterdã, já são amigas da bicicleta há décadas, e se tornam exemplos para que mais metrópoles invistam maciçamente na mobilidade ativa e saudável.

Copenhague, capital da Dinamarca, é uma cidade amiga das bicicletas


O professor e arquiteto Marcos de Oliveira Costa perguntou sobre o papel da densidade populacional para a construção de uma cidade de 15 minutos, e o cientista explicou que “a densidade é uma virtude, porque precisa de massa crítica para ter recursos e criar uma estrutura urbana, enquanto a distância é um vício, pois quanto mais distância há, mais problemas existem”.


Mas o criador do conceito das cidades policêntricas lembrou que não podemos confundir densidade com promiscuidade. “Esta é fatal e trágica para as cidades. Na América Latina e na África temos muito mais promiscuidade do que densidade, o que significa a perda da dignidade humana. Na densidade você terá recursos, e trabalhamos com o conceito de uma densidade de escala humana orgânica, consistente. Respeitando nas construções elementos como a luz natural, a ventilação, a água, a presença de áreas verdes, além dos serviços e das infraestruturas locais”.

Ciclistas em Belém; para Moreno a mudança de mentalidade é essencial e deve envolver as novas gerações


Carlos Moreno achou muito interessante a questão colocada por Chantal Brissac, do Pro Coletivo, sobre o comportamento e a mentalidade das pessoas nesse grande projeto de transformação. O quanto isso é importante para mudarmos as cidades?


Para ele, não há transformação urbana sem a mudança de cultura, de hábitos, de atitudes. “No início, em Paris, os motoristas de carros particulares reclamavam muito, pois a cultura do carro sempre foi muito valorizada, essa coisa de ligar o automóvel à liberdade, à individualidade. Após cinco anos de trabalho intensivo, eles perceberam como as mudanças eram positivas e melhoravam a vida de todos, portanto isso foi bem assimilado. A mudança de mindset, de mentalidade, é fundamental para tudo isso que estamos falando. Envolve a cultura, a educação, as questões sobre o clima e, principalmente, a educação dos jovens. Temos um programa massivo dedicado a pré-adolescentes e jovens entre dez e 18 anos, um projeto focado nos temas climáticos, que vem sendo muito importante para formar uma nova geração”, concluiu Carlos Moreno.

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