• Chantal Brissac

Também temos nossa Amsterdã


A bicicleta vem ocupando cada vez mais espaço no Brasil nos últimos anos. Apesar de não haver programas de implantação de ciclovias e bicicletários, planejamento para reduzir a velocidade das vias, preços mais justos na venda de bikes e campanhas de educação sobre o transporte ativo, seguimos, resilientes, sobre duas rodas sustentáveis pelas ruas das cidades brasileiras.


E o que chama a atenção, em meio ao crescimento de ciclistas nas grandes cidades, como São Paulo, Rio de Janeiro, Porto Alegre e Salvador, são os pequenos centros urbanos onde praticamente só se anda de bicicleta.


Um exemplo é a cidade de Afuá, na Ilha de Marajó, no Pará. Erguida sobre plataformas de madeira para evitar inundações dos rios que a cercam, e para enfrentar as estações de chuvas e as cheias das marés, esta cidade de 40 mil habitantes, a 254 km de Belém, é o único município do país onde automóveis e motocicletas são proibidos por lei. Na foto acima, de Daniel Guth, ciclistas pedalam na passarela sobre a água.


O município proíbe a circulação de veículos motorizados, pois eles põem em risco as estruturas de madeira sobre a várzea. O resultado é que, desde os anos 1970, a cidade cresce e se movimenta apenas sobre bicicletas. As motos chegaram a surgir no início da década de 1990, mas foram logo banidas pela prefeitura, com o apoio da população.


É a nossa Amsterdã tropical, com ciclistas de todas as idades pedalando pelas ruas. Cerca de 90% da população usa a bicicleta para se locomover.

Foto de Marcelo Camargo


Crianças aprendem a andar de bicicleta desde pequenos e, aos 7, 8 anos, já levam seus irmãos menores na garupa. A comunicação entre os ciclistas acontece de forma amigável e empática, sem conflitos, disputas de espaço e fumaça poluente. Acidentes são raros e, quando ocorrem, causam poucos ferimentos.


É um outro jeito de viver. Que o diga o radialista Raimundo Souza, o Sarito, figura famosa na cidade. Ele inventou em 1995 o bicitáxi, quando buscava uma forma de levar a família para passear. Montado a partir da junção de duas bicicletas em uma estrutura de aço, com bancos estofados, guarda-sóis e sistemas de som, o bicitáxi desde então se tornou popular em Afuá, circulando com passageiros o dia todo. Triciclos transportam mercadorias, a polícia faz a sua ronda diária de bike, há o quadriciclo que recolhe o lixo e as bicilâncias que acodem nas emergências, com maca e tudo.

Seu Sarito em seu bicitáxi - foto de Gabi de Bella


Ao fazer da bicicleta seu único meio de transporte terrestre, Afuá fez a escolha certa, a favor da saúde, da sustentabilidade, da gentileza e da paz no trânsito. Uma inspiração.

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