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Há um vírus no ar

22/6/2020

Autoridade em patologia e professor da Faculdade de Medicina da USP, Paulo Saldiva é um dos médicos da linha de frente do combate ao novo coronavírus. Está coordenando um grupo que coleta tecidos durante a necropsia das vítimas da covid-19, montando um biobanco que irá favorecer o estudo da doença e de suas manifestações. Ele é também um dos maiores estudiosos e especialistas do mundo em poluição do ar, autor de livros e pesquisas sobre o assunto.

 

Bióloga e pupila de Saldivas, Mariana Veras hoje coordena o Laboratório de Poluição
Atmosférica da FMUSP, concentrada em estudar os efeitos dos poluentes na saúde humana. Essa dupla brilhante da ciência conversou com o Pro Coletivo, deixando claro que a cidade pode interferir na saúde e no bem-estar das pessoas.

 

 O médico Paulo Saldiva, fotografado por Bruno Ferreira, da revista Superinteressante

 

O impacto da poluição
O isolamento fez a qualidade do ar melhorar em praticamente todos os países do mundo, inclusive no Brasil. Em São Paulo, no início da quarentena, houve uma queda de 50% de emissões de poluentes, por causa da redução de carros nas ruas e diminuição das atividades. A Cetesb registrou em algumas regiões metropolitanas concentração máxima de poluentes de 1,0 parte por milhão (ppm), enquanto o padrão em outros dias era de 9,0 partes por milhão (ppm), bem abaixo da média considerada aceitável em outros países.

 

“A poluição é um fator preocupante, pois pode agravar os casos de Covid-19. Com uma
capacidade pulmonar menor, a pessoa fica mais vulnerável a esse vírus respiratório. Além disso, são várias as enfermidades associadas à exposição prolongada aos poluentes, como doenças cardiovasculares, infecções respiratórias, câncer do pulmão, diabetes, Alzheimer e até obesidade”, diz Saldiva, que conduziu, com Mariana Veras e o time do laboratório de poluição da USP, um grande estudo sobre os efeitos da poluição em moradores da cidade de São Paulo, em 2017.

 

O estudo mediu a quantidade de carbono encontrada nos pulmões das pessoas e constatou que eles têm manchas escuras, como as de fumantes. “Antes, em necropsias, quando se via um pulmão todo preto, sabia-se que era de um fumante. A pesquisa mostrou que hoje isso independe desse fator. Respirar o ar de São Paulo é equivalente a fumar quatro cigarros por dia, e isso tem um impacto cumulativo”, diz a bióloga Mariana Veras. “Nosso pulmão é um filtro relevante, pois mostra toda essa concentração de carbono em manchas pretas, que são a fuligem e a fumaça que saem dos veículos”. A capital paulista conta hoje com uma frota de 9 milhões de veículos.

 

A bióloga Mariana Veras

 

Ciclista tem vantagens
E quanto mais tempo é gasto no trânsito, maior é a carga de carbono presente no pulmão, ressaltam os especialistas. Saldiva, ciclista e usuário de transporte coletivo, frisa a importância de mudarmos o nosso comportamento no dia a dia, preferindo a bicicleta e a caminhada. “Os congestionamentos, com o trânsito parado, fazem com que inalemos as maiores quantidade de poluentes. Por isso o ciclista e o caminhante têm vantagens, pois não ficam tanto tempo expostos à poluição”.

 

Mariana Veras compara os dois modais, carro e bicicleta: “Dois fatores são importantes, e eles são o tempo e a concentração de poluentes. No carro você fica protegido pela capa de aço e pela janela de vidro, por isso tem uma exposição a uma concentração menor, mas o tempo que fica exposto aos poluentes é muito grande, mesmo com ar condicionado. Já na bicicleta a exposição momentânea é maior, mas o tempo menor. Você se desloca rapidamente e sai daquele aprisionamento com facilidade. Pode escolher rotas e caminhos de ruas mais calmas e menos poluídas”, ela destaca.

 

 Ciclista no Rio de Janeiro, foto de Carlos Monteiro

 

O ônibus que vai por faixas e corredores exclusivos tem menos exposição, vai depender do percurso de cada veículo. O essencial é fazer melhores escolhas de mobilidade para proteger a saúde. Quando possível, é importante evitar o horário de pico e escolher o transporte ativo, como bicicleta e caminhada. “Precisamos mudar essa mentalidade de que a culpa não é nossa. A responsabilidade pela qualidade do ar da cidade é de todos nós”, afirma a bióloga, que também estudou os efeitos da poluição do ar na gestação. Ela descobriu que a exposição aos poluentes afeta o funcionamento da placenta, que é o órgão que faz a comunicação da mãe com o feto. “Pode haver redução de peso ao nascer e uma maior tendência a desenvolver problemas respiratórios”.

 


Ficar em casa só protege
Atualmente, Mariana começou a pesquisar o papel dos poluentes como “carreadores” do novo coronavírus. “Estamos avaliando se as partículas pequenininhas da poluição do ar podem funcionar como transportadores do vírus. É um estudo ainda em andamento”, ela salienta. Uma coisa é certa, diz a bióloga: “Ficar em casa protege do contágio e evita o aumento da poluição, que inflama e irrita nosso sistema respiratório, prejudicado pelo vírus. Então, tirar a poluição nesse momento só beneficia, pois torna o organismo mais forte e com menos agressões para o seu corpo”.

 

 

 

Autor do livro “Vida Urbana e Saúde – Os Desafios dos Habitantes das Metrópoles”, da Editora Contexto, Paulo Saldiva é otimista com os tempos que virão. “Vejo novas gerações que andam mais de bicicleta e pessoas mudando seu comportamento no dia a dia. Essa triste pandemia escancarou um estilo de vida que não dá para prosseguir, focado no individualismo e na desigualdade. É cada um no seu carro e uma qualidade de vida péssima nas periferias, onde as pessoas levam muito mais tempo para se mover, e onde faltam árvores e parques. O transporte individual e motorizado mantém as pessoas sedentárias e doentes, além de provocar acidentes, perda de tempo e de dinheiro. Boto fé na consciência coletiva: cidadãos reunidos discutem a ocupação da cidade e reivindicam melhoras. É urgente uma grande transformação para melhorar a saúde e a vida das pessoas”.

 

 

 

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