• Por Darlene Dalto

O advogado ciclista

Aposto que a maioria dos ciclistas que você encontra pela rua, durante a semana, veste moletons, jeans, bermudas... Roupas informais, jamais um terno bem cortado, camisa social e gravata, certo? Pois eu conheço um ciclista-advogado (ou advogado-ciclista?) em São Paulo, Thiago Tifaldi, de 41 anos, que há anos pedala de terno. Sempre muito elegante. E exótico, como dizem os seus amigos do trabalho. É verdade que hoje, por causa da pandemia, ele pedala bem menos. Antes chegava a fazer coisa de 10 ou 15 quilômetros por dia, do Butantã, onde mora, a caminho de reuniões com clientes, fóruns ou para a sede da OAB do bairro. Enquanto pedala ele costuma colocar a vida em ordem, problemas, processos, decisões... Pedala e pensa. Pensa e pedala.

Praticante de kung fu na adolescência, ex-jogador de basquete, há quase 20 anos Thiago foi proibido de jogar, lesão séria nos joelhos. O fato de ter trabalhado como carteiro durante alguns anos também não ajudou. Com o diagnóstico nas mãos, seu médico lhe deu duas opções: natação ou musculação. Dali pra frente, zero esportes de impacto. Ele logo soube que teria que se reinventar e lembrou da bicicleta, uma Caloi Explorer aro 29 chamada Mark 3, homenagem ao Homem de Ferro, um dos seus quadrinhos favoritos, até então apenas um hobby. Ele não tinha carro e não pensava em comprar um: não queria se comprometer com os custos do financiamento, gasolina, IPVA, manutenção, nem contribuir com a poluição do ar e a poluição sonora. A ideia era se manter saudável e ser sustentável, raciocínio na contracorrente do brasileiro, que normalmente vê o carro como sinal de status e costuma pegá-lo até para ir à padaria da esquina.

Em novembro de 2019, na comemoração dos 9 anos do Bike Anjo, do qual faz parte

Depois da faculdade de direito, aquela magrela mais ou menos encostada se tornou seu principal meio de transporte. Não a largou mais. Vinte anos atrás, no início, sua família resistiu dizendo que era perigoso, o trânsito pesado de São Paulo, a poluição... Pouco mudou. “Para mim é uma maneira inteligente de se locomover, de se exercitar, de usar a cidade”, ele diz. Os amigos do trabalho discordam. Nenhum deles entendia sua atitude. Cansou de ouvir variações mil de:

– Você não está em Amsterdã!

Como se ele não soubesse.

Hoje, se não chegam a apoiá-lo, ao menos deixaram as críticas de lado. Não conquistou um sequer. Nem seus exames de saúde os convenceram: sua capacidade cardiovascular é igual a de um garoto de 21 anos. A maioria prefere mesmo usar o carro. Vale dizer que antes de se aventurar pela cidade de terno e gravata em cima de uma bike, Thiago montou uma estratégia para eliminar possíveis problemas. Quando sai, sai com muita, mas muita paciência, sempre com bastante antecedência e sempre segue as regras de trânsito. Usa luvas e capacete, ainda que eles não ofereçam segurança cefálica adequada. Procura vias com menos trânsito, ciclorrotas. Tenta se tornar visível ao máximo dando sinais de braço ao fazer uma manobra, uma conversão. Outro detalhe importante: antes de sair para cada compromisso, verifica se o local possui bicicletário, paraciclo ou mesmo um estacionamento onde possa deixar sua bike. Vez ou outra combina as pedaladas com caminhadas, embora as calçadas da cidade estejam em péssimas condições. Ou com ônibus. E metrô.

Na Câmara dos Vereadores em 2019, durante debate sobre o plano cicloviário de São Paulo

E para chegar inteiro aos seus compromissos? Ele sai com antecedência e vai com calma justamente para não transpirar muito. Ele explica: “Nada que um bom desodorante e um simples papel toalha não resolvam. Além disso, se houver um banheiro ou vestiário disponível, uma refrescada básica antes de qualquer reunião também ajuda”.

Usar a bicicleta como meio de transporte em São Paulo o fez se interessar pelo assunto e hoje ele é um dos membros da comissão de direito urbanístico na OAB São Paulo e preside a comissão de direito urbanístico e mobilidade urbana na subseção Butantã. Em ambas ele parte do conceito de mobilidade, que é a condição criada para que as pessoas e bens possam exercer uma atividade econômica e social pela cidade e este conceito abarca desde a mobilidade a pé até mesmo a internet, os aplicativos e um sonho: a possibilidade aquaviária, ou seja, quem sabe, um dia, a implementação de um hidroanel pelos rios Tietê e Pinheiros. Devidamente despoluídos. Ele se tornou um ativista. Volta e meia é convidado para ministrar palestras sobre o assunto e espalhar conhecimento.

Trilha com o CAB (Clube dos Amigos da Bicicleta) em Jaguariúna, quando conheceu Raquel

A cereja do bolo? Foi em cima de uma bike que ele conheceu sua mulher, Raquel. Eles faziam uma trilha em Holambra, conhecida como a cidade das flores, perto de São Paulo. E desde então não pararam de pedalar juntos. Recentemente a felicidade se multiplicou: nasceu sua primeira filhota Flavia, que acaba de completar um mês de vida. Uma lindeza!

Quase esqueço de contar: Thiago e Raquel também são Bike Anjos. Mas essa é outra história.

Thiago e Raquel, uma história de amor com a bicicleta

Vida de Bike é uma parceria do Pro Coletivo e Bike Anjo

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