• Por Darlene Dalto

Um paulioca sobre duas rodas


Daniel e seu filho Bento

Para o fotógrafo e surfista Daniel Martins Pinheiro, 48 anos, meio paulistano, onde nasceu, meio carioca, onde cresceu e morou a maior parte da vida, a bike sempre foi um meio de transporte inteligente. Não um esporte, como o surfe, que ele pratica até hoje. Aprendeu no Rio, criança, como em geral acontece, mais precisamente em Teresópolis, no interior, em um fim de semana qualquer, pelas mãos do primo mais velho Luiz Otávio, seu grande parceiro de aventuras. A partir daí aproveitavam, ele, o primo e os amigos, o que podiam daquela cidade maravilhosa, que sempre os convidava para uns pedais como só ela consegue. E eles não impunham a menor resistência. Faziam passeios pela zona sul do Leblon ao centro, o caminho todo plano, ou pelas montanhas, por trás do Jardim Botânico, do Horto Florestal até a Vista Chinesa, no Alto da Boa Vista, um mirante com paisagens de tirar o fôlego. Um pouco mais e eles chegavam ao Cristo Redentor de bike. Iam para todos os cantos conhecidos e desconhecidos. Pura liberdade desfrutada com a maior alegria.

No metrô paulistano

Em 2004, quando voltou para São Paulo, a Cannondale que trouxe do Rio acabou em um canto qualquer do apartamento. A cidade lhe parecia zero bike friendly. Seis anos mais tarde, em uma viagem a trabalho pela Europa, visitou Amsterdã, na Holanda, e Copenhague, na Dinamarca, onde as bicicletas são sempre parte do cenário. Desse lado do Atlântico, ele entendeu que poderia fazer o mesmo em São Paulo, ao menos tentar, embora soubesse que não encontraria aqui o mesmo nível de civilidade de lá. “Achei que valia a pena, apesar do trânsito e dos congestionamentos”, pensou.

Para nós paulistanos, que vivemos o dia a dia da cidade, temos o pior trânsito do mundo. Mas cidades grandes, no mundo todo, em geral têm mesmo o trânsito complicado. Para Daniel, que conhece bem o Rio, o trânsito de São Paulo é quase civilizado. “Os motoristas de carro são mais educados, de ônibus também, eles se mantêm nos corredores ou nas suas faixas, ao contrário dos motoristas do Rio, que dirigem como uns malucos, selvagens, a mil por hora. Eles não respeitam nada nem ninguém”, compara.

Jovem em Copenhague, fotografada por Daniel

A capital da Dinamarca tem o trânsito todo voltado para os ciclistas, pois 62% das pessoas usam bicicleta

Em suas pedaladas Daniel acabou descobrindo uma São Paulo extremamente conservadora. “A elite da cidade é conservadora. Na Europa as pessoas ricas usam o transporte público, ônibus, metrô, usam a bicicleta no dia a dia, promovem uma vida mais sustentável, mais saudável. Aqui as pessoas ricas vivem blindadas em carros a diesel, de casa para o shopping e vice-versa, como se estivessem em um mundo paralelo. Elas não conhecem a cidade, os seus problemas, não se interessam pelas minorias, veem o mundo completamente disforme através das janelas dos seus carros. Essas pessoas viajam, têm informação, mas não têm consciência do seu papel no desenvolvimento de uma sociedade mais igual, sem tantas discrepâncias”, analisa. “E quanto mais tempo essa elite passa dentro dessa cápsula particular, quanto mais vive dentro dos seus carros blindados, mais ela contribui para tornar a cidade hostil. A bicicleta é só a ponta do iceberg”.

Em contraponto, Daniel conta uma história deliciosa. Ele passou 20 dias a trabalho em Nova York e achou que a melhor solução seria andar pela cidade de bike, ao invés de usar o metrocard ou algum tipo de taxi. NY é super bike friendly, é plana, é civilizada e é linda. Mas não pensou em alugar bicicletas públicas, que é caro, coisa de cinco dólares por dia. Pensou em comprar uma. E não demorou para perceber que essa foi a melhor decisão. Em uma bicicletaria do bairro, comprou uma usada por 80 dólares. Rodou os 20 dias, conheceu detalhes da cidade provavelmente desconhecidos pelos nova-iorquinos. Sentiu a cidade como nunca: as praças, as esquinas, os cheiros, os grafites, o comércio, as pessoas, a cultura local. Como não ia trazer a bike na bagagem, foi novamente à bicicletaria.

– Estou voltando para o Brasil. Não vou conseguir levar a bicicleta.

– Quanto você pagou?

– 80 dólares.

– Eu posso comprar de volta por 60.

– Deal!

Não é um dos diálogos mais bacanas do mundo? Simples assim! E o que economizou... em dólar?!

A pandemia, ele acredita, deveria servir como oportunidade para que houvesse um crescimento nítido do número de ciclistas nas ruas e nas (poucas) ciclovias de São Paulo. O que houve foi um aumento significativo no número de entregadores em cima de duas rodas tentando ganhar um dinheiro para sobreviver. Nos Estados Unidos e na Europa, em cidades como Milão, Lisboa, Paris e Londres, estão incentivando o seu uso e oferecendo valores em dinheiro para a compra ou o conserto de bicicletas. Ideias óbvias, mais do que óbvias, que geram alegria, empregos, movimentam a economia, tornam o ar menos poluído, as cidades mais silenciosas, saudáveis... Mas não chegam aqui.

Daniel também vê avanços, é bom frisar. Se não ainda há ciclovias ou bicicletários espalhados por todos os cantos da cidade, o metrô melhorou e quem anda de bike tem acesso livre às estações em qualquer horário nos fins de semana e de segunda a sexta, das 10 da manhã às quatro da tarde e após as nove da noite. “Vivo entre o Butantã, Pinheiros, Higienópolis e o centro, meu estúdio fica no Largo do Paissandu. Ando de bicicleta, ônibus, metrô. Quase não uso mais o Uber”, conta. Que o digam seus filhos, Bento, 13 anos, e Serena, sete: durante anos o maior foi para a escola na garupa da bicicleta do pai; antes da pandemia a pequena fazia o trajeto do mesmo jeito. Diversão garantida.

Daniel faz fotos de mar há três décadas, em vários locais da costa brasileira

O surfe, seu esporte favorito, ele mantém vivo com escapadas para o litoral. E nessas ocasiões dá continuidade a um projeto pessoal: fotografa o mar há uns 30 anos. Silenciosamente. Quem quiser conhecer esse trabalho pode acessar @daniel_pinheiro_photography. São lindas. Nessa pandemia ele tem fotografado especialmente um projeto social que reúne amigos que cozinham e entregam alimentos em comunidades. Mais de quatro mil quentinhas já foram entregues. Para colaborar basta acessar @tonkiri_voa. Muito lindo.

Vida de Bike é uma parceria do Pro Coletivo e Bike Anjo

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