• Por Darlene Dalto

Uma bicicleta, um legado


Ela incrivelmente só se reaproximou de verdade de uma bicicleta em 2014, quando voltou com a família ao Brasil depois de morar mais de dez anos na Inglaterra, em Loughton, distante uma hora de trem de Londres. Sim, Ana Luiza Carboni, consultora carioca formada em Psicologia e com mestrado em Gestão de Recursos Humanos pelo King's College London, andava de bicicleta na Europa, mas em cima de uma ergométrica, que ficava na garagem de sua casa. Pedalar mesmo, pouquíssimo. Digo incrivelmente porque Ana é hoje das pessoas mais envolvidas com esse veículo moderno que eu conheço. E tem um network mundial invejável. Sua vida é puro ativismo sobre duas rodas: ela coordena, questiona, pressiona, reúne grupos, dá palestras, ensina… Tanto carinho e empenho a tornaram a primeira Prefeita da Bicicleta de Niterói, no Rio de Janeiro. Não conhecia o título? Eu também não. Mas vale a pena conhecer. Temos mais duas no Brasil. Ana Carboni é também Diretora Presidenta da União de Ciclistas do Brasil (UCB), que promove o uso da bicicleta como meio de transporte, lazer e esporte, nas regiões urbanas e rurais, assim como a mobilidade sustentável.

A primeira bicicleta ela ganhou do pai aos 13 anos, aro 26, que a acompanhou de 83 a 98. Adorava essa bike, cuidava dela como os rapazes mais velhos cuidavam dos seus carros. Curiosamente não se lembra quando e onde aprendeu a andar, quando tirou as rodinhas de trás. Ela morava em Niterói, onde nasceu e mora hoje. Naquela época havia poucos carros e os dias passavam com ela brincando na rua, andando de bicicleta, descendo ladeiras de carrinho de rolimã. Era uma moleca e se divertia ao máximo.

Palestrando na conferência internacional de ciclismo Velo-City em Dublin, na Irlanda

Em 98 saiu do Brasil acompanhando o marido Romero, transferido para Londres, lá ela trabalhou na embaixada brasileira e voltaram em 2012. Morou mais três meses em Montevidéu, no Uruguai. Em 2014 estavam todos definitivamente de volta. E é aí que a nossa história começa de verdade. Digo, a história da Ana com sua bicicleta. Conversando, fiquei com a impressão de ela ter sido completamente arrebatada por esse delicado e ao mesmo tempo potente veículo de duas rodas, porque desde então não o largou mais. É seu meio de transporte. Não é lazer, não é esporte, que entre os esportes ela prefere praticar boxe mesmo. E é também a forma que ela encontrou de se posicionar como cidadã, de reivindicar e lutar por um mundo melhor. É seu legado. E tem dado certo.

Chegando para a oficina do Programa Bicicleta Brasil em Brasília, outubro de 2019

No primeiro Natal que passou no Brasil, seu marido lhe perguntou o que queria ganhar de presente. Fácil: uma bicicleta. Aquela velha aro 26 tinha sumido. Mas ela fez questão de dizer que queria uma sem marca, sem nada. A mais simples possível, uma bicicleta genérica. A ideia era evitar furtos e roubos. Foram juntos à loja e ela saiu de lá com o seu presente. Bike nova na mão, como fazia muito tempo que não pedalava por aqui, Ana achou interessante dar uma olhada no código de trânsito brasileiro. “Quis entender o que eu poderia esperar andando nas ruas e descobri que a dinâmica no dia a dia é muito diferente do que o código estabelece”, contou.

Em workshop sobre promoção da mobilidade por bicicleta em 2016

Aos poucos foi conhecendo pessoas apaixonadas de várias formas por bicicletas na sua cidade, no país e no mundo. E rapidamente foi se enturmando. Começou a pensar em como esses veículos poderiam se tornar mais visíveis em meio ao trânsito. E passou a militar. “Quero cada vez mais trabalhar para me aproximar do poder público, para que ele tenha mais ferramentas para criar novas leis ou modificar as que existem e tornar a vida dos ciclistas mais segura”.

Na bicicleta ODKV, criada para deficientes visuais, em frente ao container do Bike Anjo no Lgo da Batata

Recentemente ela colaborou com uma pesquisa coordenada pela Ciclocidade – Associação dos Ciclistas Urbanos de São Paulo – em parceria com o Bike Anjo, do qual participa. A ideia é descobrir onde existem bicicletários públicos, gratuitos, próximos aos terminais de transportes como metrô, ônibus e trem nas duas cidades. Com esses dados atualizados fica mais fácil estabelecer um diálogo e pleitear melhorias junto aos órgãos públicos, que facilitem o uso das bicicletas como meio de transporte. E em contrapartida, uma cidade mais amigável, mais humana, menos poluída, mais silenciosa, mais sustentável. Essa pesquisa deve ser divulgada no final de outubro.

Em Dublin, em passeio de bike do Velo-city em junho de 2019

E esta semana a UCB – União de Ciclistas do Brasil –, que congrega 77 organizações e tem mais de 1700 associados, lançou a campanha Mobilidade Sustentável nas Eleições: www.mobilidadenaseleicoes.org.br para quem quiser mais informação. Iniciativa importantíssima, Ana vai participar de uma série de atividades. Com o Bike Anjo, a UCB acaba de colocar no ar o podcast mensal BiciCast.

Curiosamente a bicicleta para ela não traz o lúdico. Não é sinônimo de liberdade, de vento no rosto, de infância. Ela é prática. “Para mim é o meio de transporte mais confortável e seguro. É o que faz mais sentido. Não entendo as pessoas que preferem ficar presas dentro de um carro no trânsito, ou mesmo dentro dos ônibus. Às vezes Romero me convida para dar uma volta e pergunta: ‘Vamos a pé?’. E eu devolvo: ‘Vamos de bicicleta’”, lembrou, rindo. Em algum momento o marido passou a gostar de bike, mas muito menos do que ela. Dos filhos, que aprenderam a andar com ela, é claro, Rudy, o mais velho, praticamente não pedala, Tomás pedala mais.

Falando sobre o projeto Jogos de Bicicleta no evento Bicicultura, no Rio de Janeiro

Em fevereiro ela fez uma série de palestras para 400 motoristas de ônibus de sua cidade a convite da Nittrans, empresa mista que cuida do trânsito, que organizou o 1º Ciclo de Palestras para Motoristas de Ônibus, parte da campanha Os Maiores Protegem os Menores. Sensacional. “Muitos deles também usam a bicicleta, outros têm filhos que pedalam. Basta que eles tentem se colocar no lugar dos ciclistas, dos pedestres, que se conscientizem, para que o trânsito se torne cada vez mais humano”, disse. E sugeriu: “Deveríamos ter mais políticas públicas visando os ciclistas. Por que as prefeituras não promovem cursos de reciclagem com os motoristas urbanos em geral, por exemplo? Ou por que não se reduz a velocidade dos carros e ônibus?”.

Falando com o grupo do pedal do Festival 100 gurias 100 medo em 2018

O que nos leva, finalmente, ao seu cargo mais importante: Prefeita da Bicicleta de Niterói, iniciativa global de uma ONG holandesa chamada BYCS, que pretende ter, em 30 anos, 50% dos trajetos nas cidades feitos por bikes. São três prefeitas no Brasil. Além de Ana, Jo Pereira em São Paulo e Vivi Zampieri no Rio. “É um projeto ambicioso, mas estamos avançando”.

Em dezembro de 2019 na ilha de Paquetá com o marido, Romero e o filho Tomás (em pé na bike)

E como na próxima terça-feira, 22 de setembro, é comemorado o Dia Mundial Sem Carro, que incentiva as pessoas a deixar seus automóveis em casa e utilizar outros transportes para se deslocar pelas cidades, quis saber a sua opinião. “A data é importante, sem dúvida. Mas, na minha opinião, o debate sobre a mobilidade urbana deve acontecer o ano todo, principalmente em relação às questões sociais, que levam as pessoas a terem necessidade de se deslocar por longas distâncias”. Tem razão. É o poder público que, no final das contas, define as decisões que afetam a população para o bem ou para o mal. Já passou da hora de as prefeituras ouvirem com atenção os ativistas especializados em mobilidade. Algumas cidades os ouvem, é verdade. Então as decisões, as implementações precisam ser mais rápidas. Que haja mais vontade política. Ganharemos todos, a população, o poder público e a cidade em si, uma sociedade mais igualitária. Grande Ana!

Na ciclovia da Paulista em abril de 2018

Vida de Bike é uma parceria do Pro Coletivo e Bike Anjo

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