• Chantal Brissac

Costura acolhedora


A estilista e costureira Bibi Fragelli, na foto acima, é uma caminhante animada, que se desloca basicamente a pé, além de usar o transporte coletivo. E foi durante algumas de suas caminhadas na região central de São Paulo que ela teve certeza de que precisava fazer algo para ajudar os moradores de rua. Algo dentro da sua área, que envolve a costura e a criatividade, mas também o conforto, a beleza e o acolhimento.


Assim nasceu o Projeto Casulo, que consiste em confeccionar e distribuir para essa população vulnerável um saco de dormir confortável, impermeável, prático e portátil: ele tem um bolso secreto para guardar objetos pessoais e vira bolsa quando dobrado, impedindo que os pertences sejam roubados ou recolhidos pela polícia, um medo que acompanha essas pessoas todos os dias.

Patrícia Curti e Bibi Fragelli em ação com seu projeto social


O Casulo foi idealizado por Bibi e sua sócia Patricia Curtis, e começou a ser distribuído na capital paulista nesta semana. “Essas noites tenho dormido melhor, sabendo que estamos fazendo algo para aquecer essas pessoas. Teve gente que disse que o governo é que deveria fazer isso. E eu pergunto: e já que ele não faz, a gente deixa as pessoas morrerem de frio? A ação do Casulo é paliativa, mas vem de encontro ao desejo de quem já está desesperado de ver tanta injustiça nas ruas”.


O saco de dormir pode ser grudado no outro pelo velcro e assim acolher um casal. O projeto é muito bacana e impacta positivamente em todo o seu processo. A maior parte dos casulos vem sendo produzida por costureiras do Instituto Alinha, ONG que conecta estilistas com oficinas que remuneram bem e oferecem boas condições de trabalho. “Cada peça produzida ali tem um código que, rastreado, informa quem costurou a peça e quanto essa pessoa recebeu pelo serviço”, explica Bibi.

Um casal recebe seus casulos, que podem ser unidos com o velcro, acolhendo bem a dupla, abaixo

Além de impermeável, o produto não é inflamável. Bibi acordou um dia pensando no índio Galdino, vítima de um crime hediondo em Brasília, em 20 de abril de 1997, quando foi queimado enquanto dormia por cinco jovens de classe média da cidade. Por isso ela fez vários testes com tecidos e conseguiu chegar a um material seguro e ao mesmo tempo confortável. O casulo tem três camadas: no miolo, uma rede com espuma não inflamável, depois tem o nylon resinado, que fica em contato com a pele, e uma camada externa impermeável de nylon emborrachado.


Ela explica que a ideia do projeto é totalmente descentralizadora e independente. “Ele já foi distribuído para Pelotas, Curitiba, Belo Horizonte e até Nova York. O objetivo é multiplicar a produção dos sacos de dormir, que podem ser replicados em qualquer lugar e confeccionados pelas costureiras de cada região, agasalhando as pessoas necessitadas da comunidade”.

Bibi mostra o casulo no chão e já dobrado, como bolsa a tiracolo


Desde o início de maio, os primeiros Casulos vêm sendo distribuídos. Boa parte da produção tem sido destinada ao Padre Julio Lancelotti, que trabalha há anos com a população de rua. Outros são distribuídos por parceiros e amigos, muitas vezes em suas próprias regiões. Bibi e Patricia contam com fotógrafos voluntários que filmam os comoventes encontros nas ruas da cidade, registros úteis para que os doadores possam acompanhar os passos do projeto. Pois não é apenas entregar o produto na mão, como conta Bibi. É preciso chegar, entender como essa pessoa está, conversar com ela, explicar como o Casulo pode ser usado, dobrado e carregado.


Como não há um censo sobre a população de rua de São Paulo, com estatísticas precisas, o projeto Casulo Pra Rua está a todo vapor. Produzindo com amor e carinho mais e mais abrigos para esquentar paulistanos esquecidos na cidade. Uma população invisível e que cresce a cada dia. O casulo do projeto custa R$ 148 e pesa 1 kg; para saber mais e ajudar acesse @casuloprarua ou escreva pelo email casuloprarua@gmail.com


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