• Chantal Brissac

Catalisador de felicidade


Foto de Tomas Senna


O primeiro contato que Bruno Uehara teve com uma bicicleta foi em Buenos Aires, em 1990, aos tenros três anos de idade. “Minha irmã tinha uma bicicletinha aro 16 e eu, um triciclo”, lembra Bruno, nascido há 33 anos em San Martín, na província da capital argentina.

Depois sua família se mudou para São Paulo em 1994 e ele aprendeu a pedalar só em 1999, aos 12 anos. “Todos os meus amigos e amigas da rua pedalavam e tinham bicicletas aro 20 ou 26", ele conta. Sua amiga da época, Aline, tinha uma Monark branca e laranja fluorescente, a cara dos anos 90. O pai dela, Sérgio, viu que Bruno não sabia pedalar e o ensinou. “Lembro que foi muito rápido. Primeiro aprendi a me equilibrar sem pedalar, só no embalo da bicicleta, como uma bicicleta de balanço, tirando os pés do chão. Depois levei alguns empurrões com o Sérgio segurando o selim e, quando vi, estava girando as pernas sem ajuda. A alegria foi imensa, todos os meus amigos comemoraram. Finalmente poderia acompanhá-los nas aventuras pela vizinhança”.


No Colorado, Bruno estudou framebuilding com Koichi Yamaguchi, expert em design e construção de bicicletas

Para Bruno, a bicicleta está tão arraigada em sua vida que é inconcebível imaginar o que seria a existência sem ela. “Porque ela trouxe e ainda traz muitas alegrias e vivências que me fazem vislumbrar um mundo maravilhoso e perfeito, mesmo em tempos turbulentos. Acredito com veemência que ela é um dos maiores instrumentos de transformação da humanidade, porque nos proporciona a liberdade de um deslocamento fluido, livre de estresse, de poluição, sem desperdício de recursos. Porém, a bicicleta não é somente um veículo ágil e econômico, ela também é uma fonte de vitalidade, fortalecendo nossa musculatura, nossos pulmões e nossa mente”.

Ele ainda frisa que, além dos benefícios trazidos ao indivíduo e ao planeta, pedalar é, sobretudo, uma atividade lúdica, divertida, um verdadeiro catalisador de felicidade instantânea. E o melhor de tudo: sem ônus para a humanidade, sem peso na consciência. “Ou seja, a bicicleta é perfeita, como a própria natureza”.


Para ele, a bicicleta "é perfeita, como a própria natureza" - Foto de Tomas Senna


Bruno não aprendeu a dirigir um carro, então utiliza a bicicleta para fazer praticamente todos os seus deslocamentos urbanos, seja para ir até o centro paulistano, fazer compras no supermercado ou ir até a Zona Leste, do outro lado de onde mora. Ele tem uma bolsa de mensageiro onde consegue carregar até dois quadros de bicicleta de uma vez, o que facilita bastante a sua vida.


Também gosta de passar longas horas em cima da magrela, seja treinando na estrada ou em cicloviagens. A sua primeira foi feita em 2018, quando atravessou a Cordilheira dos Andes com três amigos, saindo de Mendoza, na Argentina, até Valparaíso, no Chile. “Estou louco para fazer a próxima”, confessa.

Na Cordilheira dos Andes, em 2018, em foto de Vitor Monteiro

Arquiteto e urbanista formado pela Universidade de São Paulo, em 2013 Bruno começou a se sentir frustrado nessa área, já trabalhava como designer e arquiteto. O vazio começou a ser preenchido pela bike, porque além do uso cotidiano intenso, ele não parava de pensar na construção e na montagem de bicicletas, em suas possibilidades estéticas. Bruno sempre teve interesse no funcionamento das coisas, desde criança.

Começou a pesquisar fervorosamente sobre mecânica e, no final de 2014, aproveitou as férias do trabalho para ir até o Colorado, nos Estados Unidos, para estudar framebuilding com Koichi Yamaguchi, um dos mais importantes designers de bicicletas do mundo. “No finzinho de 2015 investi no meu tempo livre novamente e passei as férias estudando mecânica até me formar profissional, pela Escola Park Tool”. No mesmo ano ele pediu demissão.

Capa da Bicycling Brasil, famosa revista internacional - foto de Renan Bossi

De volta ao Brasil, Bruno foi trabalhar na Ciclo Urbano e, em 2018, sedento por novas possibilidades dentro do ramo, lançou seu ebook Anatomia da Bicicleta, que abriu oportunidades que jamais passariam por sua cabeça: lançou um curso online de mecânica, foi capa da primeira edição de 2019 da revista Bicycling, foi chamado para participar de palestras e encontros sobre mobilidade e recebeu propostas de parcerias e oportunidades em startups de mobilidade, como a 99 e a Grow, onde coordenou o treinamento de mecânicos de bicicleta de treze cidades do Brasil.


Na Grow, ele treinou os mecânicos de treze cidades - foto de Juneba

É voluntário no Capão Redondo, consertando bicicletas de crianças e jovens - foto de Wilson Persan

No Drop, onde dá aulas de mecânica e cria projetos ligados à bicicleta - foto de Renan Bossi

2019 foi um ano intenso e em 2020, com a pandemia, ele decidiu desacelerar. “Hoje dedico grande parte do meu tempo no Drop (dropsp.com), espaço dedicado à comunidade do ciclismo de estrada e bikepacking. No Drop, tenho uma oficina onde dou aulas de mecânica, faço manutenções e penso em novos projetos com meus sócios, tais como bicicletas customizadas e acessórios em edições limitadas, como bolsas para ciclismo e camisetas”.


Recomendada pela OMS como o melhor modal na pandemia, e priorizada em mais de 25 países, que abriram ciclovias e tiraram espaços de carros para dar lugar a ela, no Brasil a bicicleta não tem o apoio de políticas públicas e dos governantes, que priorizam o carro.

Bruno lamenta muito esse tipo de atraso com relação à mobilidade ativa. “Já está comprovado no mundo todo que o incentivo ao uso dos automóveis particulares não traz nenhum benefício para o uso urbano; eles aumentam os óbitos, a violência e a poluição, seja ela sonora ou atmosférica, sem falar nos prejuízos à saúde mental”.

Na oficina do Drop, onde trabalha atualmente - foto de Renan Bossi


Esse mestre da bike, que vive, trabalha e pensa esta engenhosa e sustentável máquina 24 horas por dia, acha fundamental que empresas do setor recebam incentivos fiscais para tornar a bicicleta mais acessível para a população. “É um absurdo ver que bicicletas com o mínimo de segurança e qualidade custem tão caro, tornando-as praticamente inacessíveis para grande parte da população brasileira. É por isso que vemos tantas bicicletas de qualidade duvidosa circulando por aí e a questão não é ostentar um produto caro, mas a segurança que ela deve proporcionar. Não é à toa que houve um crescimento vertiginoso do uso de bikes que estavam empoeiradas nas garagens e na venda de usadas. Se eu, que trabalho com bicicleta há um tempo, não consigo entender como uma bicicleta pode custar a mesma coisa que uma moto, imagine o que pensará uma pessoa desinformada?”

Além de torná-la acessível, também é primordial torná-la segura, ele observa. “Qualquer pessoa sente o cheiro da morte ao levar uma fina de um carro e ninguém, em sã consciência, acredita que é 100% seguro pedalar em uma via onde há tráfego intenso de carros. Por isso vemos tantos ciclistas nas calçadas (quando não há ciclovia). É o único lugar onde nos sentimos seguros, longe da letalidade de máquinas de 1 tonelada circulando a 40 km/h. A construção de uma única ciclovia é um incentivo para que ciclistas (e pedestres) possam ter mais espaço para circular dentro das cidades, mas é necessário criar uma rede, uma malha cicloviária que conecte todos os pontos da cidade para minimizar o abismo social que existe entre a periferia e o centro”.

Após meses confinado, Bruno valorizou muito mais o pedal e o vento no rosto - foto de Tomas Senna


Atualmente, Bruno tem utilizado a bicicleta para pedalar sozinho, seja para ir ao trabalho ou para arejar a cabeça. “Ela é um santo remédio nesses tempos de reclusão”, observa. Depois de ter ficado meses confinado, ele lembra uma emoção recente, quando voltou a pedalar. “Foi simplesmente libertador. Hoje consigo entender por que cachorros ficam tão felizes quando vão passear, passei a valorizar muito mais o privilégio que tenho de poder pedalar e sentir o vento na cara”.

E por que é importante para os ciclistas entender a mecânica da bicicleta, conhecer seus componentes? “Meu único argumento é a segurança. A bicicleta não é um brinquedo, como muitas pessoas ainda enxergam. Ela é um veículo, uma máquina, e está sujeita a falhas e desgaste. A construção e o funcionamento de bicicletas convencionais são extremamente simples, mas merecem atenção em todas as partes, principalmente nos freios, pneus e transmissão”. A parte mais complexa, segundo ele, é a transmissão, que consiste em um conjunto de engrenagens, corrente e mecanismos expostos aos elementos como chuva, areia, poeira e terra. Tudo isso provoca desgaste, assim a regra número um é manter a bicicleta sempre limpa para aumentar a longevidade de seus componentes. “Por isso dou aulas de mecânica. Acredito que ensinar a pescar é melhor do que vender o peixe. E olha que sou vegetariano", ele emenda, rindo.

Em 2018, quando escreveu o ebook Anatomia da Bicicletas - foto de Renan Bossi


A pandemia trouxe à tona alguns projetos de Bruno que estavam engavetados. O principal deles é a arte, a pintura, o desenho, que foi o assunto para o qual mais dedicou tempo e energia ao longo da vida. “Desenhar sempre fez parte da minha vida, desde pequeno, então sinto no fundo do meu coração que ainda tenho que fazer algo com isso, por isso voltei a pintar. Quem sabe não viro um artista que tem a bicicleta como mote? Por enquanto vou levando como hobby; os desdobramentos disso tudo somente o futuro poderá dizer”.

Em se tratando do sábio, persistente e talentoso Bruno Uehara, certamente ele fará o seu melhor e será feliz também como artista! E com uma temática mais do que bem-vinda e inspiradora.

Nos Andes, uma cicloviagem emocionante, em foto de Vitor Monteiro



Vida de Bike é uma parceria do Pro Coletivo e Bike Anjo

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