• Por Vitória Pierri, do Jornal da USP

Já ouviu falar de obesidade mental?


O consumo excessivo de informações e, ainda, de baixa qualidade, disponíveis na internet, nas redes sociais e na televisão – com ampla gama de programas para todos os tipos de públicos – pode ter efeitos mentais, e até físicos, negativos.


Segundo o filósofo e pós-doutor em discurso imagético pela Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Ribeirão Preto (FFCLRP) da USP, João Flávio de Almeida, “obesidade mental” não é o diagnóstico oficial de uma doença, mas um termo para explicar a produção e consumo de informações do mundo digital contemporâneo. E, informa, esse consumo exagerado acontece com informações repetidas e, geralmente, de entretenimento.


“O entretenimento é, no campo da informação, o docinho, as guloseimas. São muitos doces, fáceis ao paladar”, explica Almeida. “A gente vai lá abrir uma série muito boa na Netflix; enquanto não acabar aquela caixa de guloseimas, enquanto não for do primeiro ao último episódio, eu não paro de comer aquele entretenimento.” Para o especialista, o grande consumo de informações de baixa qualidade impede o indivíduo de pensar em conteúdos diferentes.

Causas e consequências da “obesidade mental”


Almeida aponta algumas causas para a obesidade mental; entre elas, as informações rasas e infantilizadas que, aliadas às redes sociais e seus mecanismos de interações – curtidas, comentários e compartilhamentos – proporcionam um maior volume desses conteúdos. Assim, acrescenta o filósofo, é que a passividade é fomentada e desencadeia a obesidade mental. “A gente perde a capacidade de detectar quando uma boa informação passa por nós” e, diante de um bom filme, por exemplo, “não conseguimos apreciar porque nós ficamos acostumados com essas guloseimas, nós ficamos acostumados com o alimento excessivamente doce”.


Para o especialista, a obesidade intelectual também afeta a saúde física, já que o grande período em frente às telas de computadores e celulares diminui o tempo diante do mundo real, material e, por consequência, a prática de atividades físicas e o contato com a natureza.

Esse é o caso da estudante de enfermagem Marcela Rúbio Teixeira, de 22 anos, que diz apresentar os sintomas físicos da obesidade mental. Marcela acredita que as dores de cabeça, o cansaço, a ansiedade e a irritação que sente, além do fato de procrastinar e não conseguir finalizar tarefas, sejam resultado dessa tal de obesidade mental. Para a jovem, a grande quantidade de informações que consome na internet, muitas vezes de entretenimento, somada aos conteúdos de seus cursos da faculdade, impede que ela consiga selecionar o que é realmente informação importante.


“Acaba me fazendo mal”, afirma a estudante, dizendo que não consegue encarar a vida de forma otimista. Relata ter “muita sede” por conhecimentos, mas, ao mesmo tempo, não dá continuidade às buscas e se perde. Conta ter percebido essa condição em sua vida há cerca de cinco anos, o que ajudou a estudante a procurar formas de mudar o consumo de informações.


“Eu tenho filtrado mais o tipo de conteúdo que vou consumir, principalmente conteúdo externo, relacionado à política, saúde, a entretenimento também. E ficar menos tempo no celular”, afirma. Além disso, a estudante tenta colocar em prática conhecimentos já adquiridos. Diminuição da ansiedade é um dos benefícios que Marcela vem percebendo em sua vida.


Já a estudante de engenharia agronômica Stefania Fernandes, de 22 anos, que diz ter sido tomada pelo “cansaço mental e emocional, procrastinação e, como consequência direta, perda de qualidade de vida”, conta que o entendimento da situação veio da própria internet, quando se deparou com o termo “obesidade mental”.


Após ter se identificado como obesa intelectual, Stefania repensou seu consumo de informações e decidiu dar o primeiro passo, usando as redes sociais normais, mas selecionando os conteúdos. Mas, mesmo se afastando de informações de pouca qualidade, a jovem conta que ainda se sentia dominada pelo consumo de informações. Foi então que deixou de acessar as redes sociais por um período de tempo.


No momento, Stefania diz estar retomando o uso das mídias, porém, de maneira mais seletiva e equilibrada no acompanhamento dos conteúdos “que acrescentam e controlando o tempo que eu fico on-line”. Com relação aos vídeos e podcasts, é rigorosa: “Só algo que eu realmente vá ouvir, refletir e aplicar”.


Como prevenir a “obesidade mental”


Almeida acredita que o número de obesos mentais tende a aumentar ao longo do tempo, chegando a nível global. O filósofo teme ainda que ocorra o que ele chama de “morte do pensamento”, com fechamento de livrarias e editoras, menor produção de obras artísticas que estimulam pensamento crítico, diminuição de disciplinas de filosofia, sociologia e artes nas escolas e o aumento de preocupações de cunho financeiro.

Mas, segundo ele, o remédio e a prevenção da obesidade intelectual estão na seletividade do consumo de informações, com o afastamento de conteúdos de baixa qualidade e o equilíbrio no consumo dos bons materiais, uma vez que o exagero não é benéfico, mesmo sendo de boa origem.


Para o especialista, é preciso manter a atividade mental e, assim, “escrever, escrever poesias” pode ajudar muito. Para os viciados em tecnologia, Almeida deixa a dica de “voltar a desenhar, a fazer atividades físicas”, sempre lembrando que “colocar a criatividade em prática, criando e produzindo novos materiais, é uma estratégia importante contra a obesidade mental”.

Foto de João Benz


Segundo o neurocientista Facundo Manes, autor do livro “O cérebro do futuro” (Paidós), escrito em conjunto com Mateo Niro, um cérebro em forma é conquistado com exercício físico, que além das alterações cardiovasculares, reforça o pensamento criativo, estimula e gera novas conexões neuronais. Mas não é só isso. "Você precisa dormir bem, evitar o estresse ou trabalhar para que isso não afete você. E também manter contato humano: a vida social protege o cérebro. Somos seres sociais, e o isolamento crônico, sentindo-se sozinho, é um fator de mortalidade mais importante do que a poluição ambiental, a obesidade ou o alcoolismo. E, no entanto, quando você vai ao médico, eles nunca perguntam quantos amigos você tem. E também aprender algo novo sempre. Você nunca deve se aposentar daquilo que você é apaixonado".





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