• Por Carlos Monteiro

Capacete abandonado


Ele estava ali, solitário, junto às raízes daquela árvore num canteiro qualquer da avenida Visconde de Albuquerque, no Leblon, Zona Sul do Rio, quase à beira do canal. Pouco mais, despencaria para um ‘banho’ naquelas águas contaminadas e poluídas. Abandonado, largado estava, como lixo, jazia ao lado daquela garrafa pet de água mineral vendida nos sinais, semáforos, sinaleiras, faróis..., jogada, evidentemente por um desses “Sujismundos” – só os entendedores entenderão e, assim mesmo, só os mais experientes, turma raiz – que emporcalham a cidade. Além de mal educados, porcos – com todo respeito que tenho aos suínos –, desconhecem cidadania, bem-viver e bem-estar coletivo.

Dia desses vi um deles, a bordo de um reluzente Porsche Panamera azul-marinho, conversa de 200 mil dólares, despejar pela janela de seu possante não só uma garrafa pet como vários papéis e uma caixa que pareceu ser de chicletes em plena Avenida das Américas, na Barra da Tijuca, Zona Oeste carioca.

Mas a história é do capacete preto abandonado, não dos desavisados que emporcalham a cidade. Por que o capacete estava ali? Quem o deixou em local tão inusitado? Terá ‘guardado’ ao pé da árvore? Voltará para buscá-lo? Abandonos de capacetes não são tão inusitados assim. Ao fazer uma matéria sobre meio ambiente para um jornalão, há uns seis ou sete anos, optei por fotografar as praias da Ilha do Governador como a maior representação do descaso com a Baía de Guanabara. Minha primeira parada foi a Praia do Galeão, que não rendeu muita coisa. Aproveitei para captar imagens das aves marinhas que por lá voavam em busca do peixe nosso de cada dia.

Segui em direção à Praia da Bica. Pasmem, lá encontrei não e tão somente um capacete, mas cinco, além de vários ventiladores, garrafas aos borbotões, caixas diversas, bolas, bonecas, sapatos, chinelos, partes de computadores, uma geladeira, partes de cadeiras e mesas plásticas e tantas outras coisas que se fosse enumerar aqui tomaria todo o espaço da crônica. Imediatamente me lembrei da fábula da tartaruga encimando o poste. Nada daquilo fazia sentido. Aquele lixo todo não poderia estar ali, então como chegou até aquelas pedras? Quem o levou? Por que continuavam ali ajudando a proliferar um mar, e não é trocadilho, de ratos e baratas que os envolviam?


Caminhei adentrando o insulano bairro carioca. Chegando à Ribeira o cenário era bem pior. Dois bravos garis, heróis-cidadãos, tentavam inutilmente retirar da beira-mar um gigantesco colchão, absolutamente inflado pelo poder da água e que se tornara uma grotesca barra de chumbo, tal era o peso que adquirira. Esforços hercúleos e infindos que não lograram sucesso. O objeto que adornou algum dia um catre, agora era um emaranhado de molas, espumas, tecidos e outras coisas que não fizeram parte de sua composição quando de seu fabrico. Era lixo poluente. E a tartaruga? E o poste?

Conclui a matéria na Enseada de Botafogo, pois é na Pérola Carioca segundo Drummond. Eram poucos os objetos que ‘enfeitavam’ as areias e as águas se comparados aos vistos na Ilha, no entanto, na linha da areia molhada havia uma cobertura de guimbas de cigarro avassaladora, o odor era insuportável, a sensação estava para uma overdose de nicotina e alcatrão. Só vi quantidade parecida numa visita escolar à fábrica da Lopes Sá – sim, nos anos 1970 isso acontecia. E a tartaruga? E o poste? Vasos sanitários, bueiros, ralos, rios, praias... como foram parar ali? As aves marinhas, talvez pelos aromatizadores do tabaco, fuçavam aquelas baganas em busca de alimento. Mais uma vez: e a tartaruga? E o poste? E lá estava ele, preto, um tanto quanto desbotado, com alguns adesivos opacos, ao pé da árvore, velha figueira em total abandono, ambos, a árvore e o capacete. Ambos protetores, ali naquela avenida do Leblon cortada pelo canal descansava, quase em paz, um capacete. E a tartaruga? E o poste?



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