• Chantal Brissac

Mobilidade ativa e escola devem andar juntas


Principalmente na última década, as pessoas passaram a refletir mais sobre as cidades onde vivem e se locomovem. O tema mobilidade urbana ganhou espaço, até por causa do alto nível de insatisfação com o modelo tradicional, focado no carro individual a combustão. Um sistema que tem impactos na poluição ambiental, no aumento do estresse e da ansiedade, e na violência no trânsito.


Em 2016, pesquisa do ITDC mostrou o cenário desolador de vítimas do trânsito no Brasil: 37 mil mortos e 180 mil feridos em apenas um ano. Hoje, em cidades europeias e em vários outros países, o planejamento das cidades é feito com ênfase na mobilidade sustentável e ativa, priorizando o caminhar, o uso de ciclovias, e os meios de transporte coletivo não poluentes, além de carros compartilhados,


O foco das cidades deixa de ser o tráfego, e as metrópoles passam a ser planejadas para as pessoas. Para que todos, independentemente de idade, gênero, etnia, condição social e física, vivam bem. Com saúde, segurança e qualidade de vida.


Este é um dos temas centrais e apaixonantes do Pro Coletivo e de outras organizações e empresas, que surgem para estimular, motivar, ajudar e trabalhar por uma mobilidade urbana mais saudável e inteligente.


O Carona a Pé (na foto acima) é um exemplo inspirador. Fundado em 2015 pela professora Carolina Padilha, ele tem como objetivo sensibilizar e capacitar a comunidade escolar que mora próxima para percorrer junta o trajeto de ida e volta da escola em pequenos grupos, em um horário pré-estabelecido, seguindo uma rota determinada. Em outras, palavras, o Carona a Pé convida, gentilmente, pais e filhos a ir diariamente para a escola a pé, junto com outras crianças e seus familiares e cuidadores. E assim, estimula-os a usufruir o espaço urbano e construir uma nova relação com a cidade.

Crianças do grupo Carona a Pé a caminho da escola, em São Paulo


Para consolidar esses princípios e disseminar esse conhecimento e experiências, o Carona a Pé lançou, neste mês de maio, o Guia "Mobilidade urbana na escola: por que esse tema não deve ficar parado?", projeto feito em parceria com a Fundação Grupo VW.


Em formato digital, e com recursos de acessibilidade, o guia está disponível para acesso e download gratuito no site da Fundação (www.fundacaogrupovw.org.br/materiais-educativos/) e é destinado não apenas para estudantes, mas também para educadores, gestores escolares e todos os cidadãos que reconhecem a necessidade de melhorar as cidades brasileiras.


O guia é oferecido como um convite aos educadores e às escolas para a introdução da mobilidade urbana como Tema Contemporâneo Transversal (TCT) no currículo.

Pedestres no centro paulistano; foto Cidade a pé


Segundo André Luis Doneux Ferreira, educador e Doutor em Filosofia pela FFLCH – USP, embora a mobilidade urbana não esteja presente diretamente na Base Nacional Comum Curricular (BNCC) como um dos quinze TCTs nela explicitados, as múltiplas questões envolvidas na demanda social por boas condições de deslocamento nas cidades contemplam vários desses temas. "Essa relação é muito clara no que diz respeito à Educação para o Trânsito, condição fundamental para a promoção da mobilidade urbana. No entanto, além da construção de um trânsito seguro, a demanda social pela promoção da mobilidade urbana visa a superação de uma série de outros desafios, decorrentes do modo como as nossas cidades foram constituídas historicamente. São desafios que envolvem temas ligados ao Meio Ambiente, à Economia, à Saúde, à Acessibilidade, à Cidadania e Civismo, ao Multiculturalismo e à Ciência e Tecnologia, aos Direitos Humanos, aos Direitos das Crianças e Adolescentes, Processos de Envelhecimento, Respeito e Valorização do Idoso", diz o educador.


Desse modo, a inclusão da mobilidade urbana como TCT implica o compromisso dos educadores com a construção de um processo de ensino e aprendizagem pautado pela transversalidade.

O guia nos relembra que a melhor maneira de se apropriar da cidade é caminhando. É no caminhar que se percebem as belezas e os problemas da cidade; o olhar para a paisagem é mais cuidadoso, detalhado e a sensação de pertencimento e integração se ampliam. No caminhar, existe a liberdade de ir e vir em diferentes direções e com paradas a qualquer instante. Os aprendizados durante uma caminhada são inúmeros, independentemente da idade de quem caminha.


É a maneira mais democrática de se locomover. Todo deslocamento começa e termina a pé e por isso é preciso que os trajetos, por mais curtos que sejam, possam ser percorridos de forma segura por todos. Crianças, adultos e idosos, com ou sem limitações de locomoção, com ou sem a necessidade de uso de bengalas ou cadeiras de rodas, com carrinhos de bebês ou simplesmente com a energia do próprio corpo, são todos pedestres. Portanto, nossos passeios, calçadas, travessias e acessos ao transporte público devem atender as necessidades e demandas de todos.

Estima-se que 40% dos brasileiros se deslocam exclusivamente a pé. Se incluídos os 28% dos deslocamentos diários em transporte coletivo – que sempre possuem um trecho também a pé no início e/ou no final do deslocamento – os deslocamentos a pé chegam a 68%do total. São 130 milhões de pedestres andando pelas ruas do Brasil todos os dias, segundo estudo da Associação Nacional de Transportes Públicos (ANTP), de 2016.


Em agosto de 2020, em São Paulo, o Decreto nº 59.670 regulamentou o Acesse Estatuto do Pedestre, uma lei elaborada a partir da colaboração da sociedade civil com o objetivo de formalizar instrumentos que possibilitem a garantia de direitos de quem caminha pela cidade. Com a pandemia da COVID-19, em 2020, percebe-se ainda mais a importância do caminhar e do deslocamento a pé, além da bicicleta, como prioridade para manter o distanciamento e a saúde.

Filas duplas nas portas das escolas, com carros soltando emissões poluentes, pessoas estressadas, muita buzina e desrespeito não são, convenhamos, exemplos bacanas para formar as novas gerações. O convite à mobilidade ativa pode começar desde cedo, na primeira infância, formando valores como empatia e respeito ao próximo, diversidade, cidadania e segurança. “O espaço público é rico, diverso e de todos. É circulando pelas ruas que boas perguntas e reflexões surgirão, principalmente do que não está bom e poderia melhorar”, diz Carolina Padilha, fundadora do Carona a Pé.


Renata Morettin, sócia-fundadora do Carona a Pé, conta que pensar o guia no contexto da pandemia, com a necessidade de isolamento, foi um desafio e tanto. “Por outro lado, depois de vivermos meses de pouca circulação, ficou evidente como os locais de convívio social e o contato com elementos da natureza são importantes e necessários para a saúde física e mental e o quanto é urgente pensar em uma cidade mais acessível e segura para todos”, afirma.

Em 97 páginas, o guia traz exemplos concretos, chamados de "Pílulas de Ação", e sugestões para a elaboração de atividades pedagógicas com os alunos. “Mobilidade urbana é muito mais do que ir e vir. Acessibilidade, desenvolvimento sustentável, inclusão social, segurança viária, cidadania, eficiência na circulação pelas cidades... Esses são alguns dos princípios universais que estão vinculados ao tema, que é uma das causas de atuação da Fundação, e podem transformar significativamente o futuro das cidades”, afirma Vitor Hugo Neia, diretor da Fundação Grupo Volkswagen.


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