• Por Carlos Monteiro

O Rio em 2020



Este ano não foi fácil, não mesmo! Quantas coisas inimagináveis... se um desses profetas de fim de ano em 2019 previsse apenas metade do que aconteceu, diríamos que era louco e impostor.


O ano começou com um verão quente e dias absolutamente ensolarados e pores de sol magníficos, mas já havia no ar muito mais que os aviões de carreira. Sabia-se que a pandemia chegaria ao Rio, mas quando? Com que intensidade? De que maneira? O último evento público que fui aconteceu no dia 13 de março, à noite de uma sexta-feira quente. Era a inauguração da mais recente livraria do Rio. Instalada numa movimentada rua do Jardim Botânico, a ”Janela” nascia misto de bar, livraria e espaço cultural. Ruy Castro e Heloísa Seixas bateram um papo com o público sobre seus recentes lançamentos literários. Acontecimento agradabilíssimo. Poucos dias depois – 17 de março – era decretado ‘lockdown’ na cidade. Naquela tarde, o Cristo ficou envolto em nuvens um tanto quanto sorrateiras, prenúncio do que estava por vir.

Os escritores Ruy Castro e Heloisa Seixas na livraria Janela, no dia 13 de março


Passei a registrar o amanhecer e o movimento da Cidade Maravilhosa através da janela do quarto, da janela do carro.


O Sol encimava o Pão de Açúcar soberanamente em abril. Os dias passavam, o céu colorido em nuances especiais e já estávamos em maio. A paisagem mudou, novo acessório foi incorporado ao figurino do carioca: a máscara protetora e salvadora de vidas. Até o poeta lançou mão. O Cristo, símbolo máximo da cidade, passou a realizar projeções em agradecimento aos dedicados profissionais de saúde e outros segmentos e a todos os que, ativamente, estavam engajados na luta contra a fome e por menos desigualdades. Estávamos em junho.

Já em julho estava claro que hábitos haviam mudado, as praias se tornaram janelas e varandas, terraços ou onde entrasse, nem que fosse alguns raios, uma nesga de Sol. Tudo pela vitamina D. Em agosto as máscaras já estavam mais que incorporadas ao cotidiano, até mesmo para a prática de esportes nas orlas. Nesse mesmo mês o Rio foi surpreendido por um arco-íris gigantesco, uma abóbada protetora prenunciando novos tempos.

Em setembro o Sol já retornava seu caminho rumo ao verão. Aparecia cada dia mais cedo escorregando nas encostas com açúcar e afeto. O poeta dava o tom: a noite dos mascarados protegidos e protetores.


Em outubro uma enorme Lua Cheia compôs, com o avião, um espetáculo sem igual. Iluminando o Pão de Açúcar e prateando a Cidade Maravilhosa, demonstrando que, de fato, é dos namorados, dos enamorados salpicando de esperança tantos corações aflitos.

Em novembro os dias amanhecem mais azuis. Cor do mar. Para muitos, uma vontade no peito e, quem sabe, cantar ao mundo inteiro e dizer que aprendemos. O pôr do sol passou a fazer parte do desembaçador do carro, ali, como uma nota musical solar.


Veio dezembro, aviões de carreira no ar e uma vontade enorme de cantar Chico: “Vai, meu irmão/Pega esse avião/Você tem razão de correr assim.../(d)O meu Rio de Janeiro/Antes que um aventureiro/Lance mão//Pede perdão/Pela duração dessa temporada/Mas não diga nada/Que me viu chorando...”, em busca da vacina, em busca da normalidade, “...Se puder me manda uma notícia boa...”.

2020, o ano que não deveria ter existido!


Em 2021 dias melhores serão, dias melhores existirão!


Feliz Ano Novo Normal!


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