• Denise Silveira

Projeto Pedalar leva a bicicleta aos detentos


Curso de mecânica de bike forma a primeira turma com detentos do CDP de Jundiaí - fotos Caio Guatelli


Enfileirados e algemados, os detentos da unidade prisional de segurança máxima deixam o portão que leva até as celas para trás. Todos aguardam julgamento pelo crime de homicídio. As algemas são retiradas uma a uma.


A capacidade do Centro de Detenção Provisória Marco Antônio Alves Bezerra, de Jundiaí, é de 848 presos. No entanto, de acordo com a Secretaria de Administração Penitenciária, há 1230 detentos, 382 pessoas além da lotação para a qual foi planejado, em 2010. Destes, apenas 16 foram escolhidos, por bom comportamento, para a primeira turma de formação em mecânica de bicicleta, curso ministrado em parceria com o Instituto Ação Pela Paz.


Durante três horas, sob forte esquema de segurança, eles se concentram em um símbolo do que perderam: a liberdade.

O Prof. Marco Antonio Bueno dá aulas para para o grupo em Jundiaí - Caio Guatelli


Em cima da mesa, ferramentas ficam à disposição. Na parede branca da oficina, apenas um ventilador, as canaletas de proteção da fiação elétrica e o logo pintado da FUNAP, Fundação Prof. Dr. Manoel Pedro Pimentel de Amparo ao Preso, responsável pelos programas sociais de 142 penitenciárias do Estado de São Paulo em parceria com a SAP.


Um dos detentos coloca cuidadosamente o cabo de aço numa bicicleta cor de rosa. É Paulo Gomes Moreno, 39 anos, que veste uniforme, camiseta branca e calça bege. Ele conta que pegava a bicicleta dos irmãos escondido para aprender a pedalar, já que a família não tinha condições financeiras de comprar uma para cada filho. "Quando andei pela primeira vez eu era moleque. Aprendi caindo. Caí primeiro, depois fui andar", lembra.

Apenas 16 detentos foram escolhidos, por bom comportamento, para a primeira turma de formação em mecânica de bicicleta, curso ministrado em parceria com o Instituto Ação Pela Paz - Caio Guatelli


Ao montar e desmontar a bicicleta apelidada carinhosamente de Chiquinha, Paulo sonha com um futuro onde possa ter uma renda com a sua própria oficina. Esse é o primeiro curso profissionalizante que ele faz na vida. Aprendeu caindo, mas no CDP tem a orientação atenta de um professor para se levantar. Marco Antonio Bueno da Silva, 60 anos, é voluntário da Sociedade São Vicente de Paulo, que atua no Brasil e em 170 países. Ele começou a mexer nas bikes ainda jovem e depois se interessou pelas aulas de mecânica na internet. É ciclista por lazer e recebeu o convite para dar aulas com entusiasmo. Aproveita o tempo que passa com os alunos para levar mensagens de otimismo, inteligência emocional e motivação para o trabalho, sem julgar ninguém. "O retorno que eu tive foi muito gratificante, porque eles mostraram muito interesse em aprender a mexer com bicicleta", diz, dentro da sala de aula teórica em frente à oficina, com mesas, cadeiras e um painel fotográfico encomendado especialmente para o Projeto Pedalar.


Muitos já tinham alguma noção e aproveitam a oportunidade para se aprimorar. "Tá sendo muito interessante pra mim, tô agregando conhecimento. Coisas até que eu sabia e que muitos anos depois tinha me esquecido na minha cabeça", afirma Fábio da Silva Damião, de 24 anos, enquanto solta o freio para trocar a roda da outra bike da oficina.

Com a capacitação profissional, o Projeto Pedalar visa transformar o futuro dos detentos - Caio Guatelli


Os dois protótipos usados nas aulas foram cedidos pelo Instituto Ação Pela Paz. As aulas acontecem uma vez por semana. O Projeto Pedalar nasceu da busca no mercado por uma capacitação inovadora e inédita no Estado de São Paulo e pretende formar seis turmas de detentos até o fim de julho.


Para Alexandre Apolinário de Oliveira, diretor técnico do CDP, é um nicho de mercado onde o próprio preso pode montar o seu negócio depois que sair da prisão e não mais reincidir no crime. "Essa é uma das missões da nossa secretaria, não apenas custodiar a pessoa presa, mas transformar a sua realidade para que ele tenha novas oportunidades e aí consiga realmente construir o seu caminho fora dos muros. Juntamente com isso ele também pode ser o empregador de outras pessoas e transmitir esse conhecimento", acredita.


Veja a videorreportagem inédita do Projeto Pedalar


A jornalista Denise Silveira, colaboradora do Pro Coletivo, foi a primeira mulher a visitar o Projeto Pedalar no CDP em Jundiaí. Esteve no centro na companhia do fotógrafo Caio Guatelli, colunista do Ciclocosmo, da Folha de S. Paulo. Caio se entusiasmou com o projeto e, num determinado momento, chegou a ajudar os detentos na aula. Confira a videorreportagem especial feita por Denise:




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