• Chantal Brissac

Tortas no pedal


Uma receita tradicional, com temperos caseiros e afetivos; uma bicicleta; e muita disposição, perseverança e fé. Essa foi a fórmula que transformou, durante a pandemia, a vida da família de Diego Salgado, de 38 anos.

Jornalista esportivo do site UOL, Diego começou a se preocupar com a situação de seu pai, Antônio, de 63 anos, já nos primeiros meses do isolamento. Motorista de aplicativo e fazendo parte do grupo de risco, ele teve que parar de trabalhar, mas se estressava porque as contas só se acumulavam, por isso planejava voltar às ruas. Diego e os irmãos começaram então a pensar em alternativas profissionais seguras para o pai, mas foi Elaine, a namorada de Antônio, quem sugeriu a ideia que alavancou um novo e sustentável caminho: por que não vender as deliciosas tortas salgadas que ele gostava de preparar nos finais de semana e em ocasiões especiais?


Assim, no dia 25 de maio nasceu a Torta do Pai (@tortadopai), um negócio que uniu ainda mais Antônio – que se mantém feliz na cozinha, produzindo suas tortas de sabores como frango, palmito e calabresa – e Diego, que desde o início pensou em entregar os pedidos de bicicleta. “Eu não tenho carro, sempre andei de bike e queria trabalhar pedalando”.

Antônio e Diego: pai e filho em uma parceria afinada e sustentável


A primeira postagem no twitter era praticamente um apelo: Diego explicava que seu pai não podia sair, mas precisava trabalhar para se manter e honrar os compromissos. Ele recebeu de cara 800 mensagens. “Foi uma loucura, fiquei respondendo durante toda a madrugada e tive que criar um limite, que é a entrega na região do centro expandido de São Paulo. Conseguimos atender todo mundo e começamos uma história de sucesso que está muito ligada à solidariedade das pessoas. A gente só conseguiu chegar hoje a quatro mil tortas vendidas por causa dessa disposição das pessoas em ajudar. É lógico que se a torta não fosse boa não iria vender tanto, mas todos viram ali um apelo de um filho para que o pai se protegesse e ficasse em casa por causa da pandemia”.


A bicicleta faz parte da vida de Diego desde a infância, quando pedalava com os irmãos. “Mas era só na frente de casa, porque minha mãe tinha medo; a gente não podia virar a esquina”. Já em 2001, quando ele tinha 19 anos, a bike reapareceu, trazendo liberdade e autonomia. Para pagar a faculdade, ele foi trabalhar no McDonald’s da rua Henrique Schaumann. “O salário era muito pequeno, cerca de R$ 220, e o vale transporte era pago em dinheiro, uns 70 reais. Eu pensei que podia aumentar meu salário se fosse de bicicleta, por isso passei a pedalar diariamente do Butantã até Pinheiros”.

Aos 19 anos, funcionário do McDonald's, quando descobriu o poder da bicicleta


Diego trabalhava de madrugada, das 23h às 7h da manhã, e encontrou uma certa facilidade nesse contrafluxo: “Comecei ali a ver que a bicicleta era um meio de transporte muito fascinante, que fazia a diferença no trânsito, no meio ambiente, na saúde e até no estado emocional”. Foi assim que se apaixonou, ele confessa.


“Eu me sinto muito bem em cima de uma bicicleta! Além de todas essas vantagens de saúde e sustentabilidade, tem a parte financeira, porque você não vai gastar nada para pedalar, a manutenção é mínima. Mas vai muito além disso, a bicicleta me acalma. Embora a gente viva numa cidade que é complicada para pedalar, em que a falta de respeito é enorme, eu consigo encontrar na bike o meu equilíbrio, eu consigo refletir sobre as coisas, pensar... Ela é a minha parceirona de vida, são 21 anos pedalando, uma relação muito forte. Um estilo de vida que quero levar para o resto da minha existência”, conta Diego, explicando que luta por uma cidade de São Paulo mais humana, segura e acolhedora, onde as pessoas possam sair para jantar de bicicleta, onde as ruas sejam compartilhadas por todos os modais, onde as novas gerações não tenham medo de pedalar.

Ele acredita que as coisas melhoraram muito de 2000 para cá, com mais ciclistas nas ruas e uma estrutura cicloviária melhor, mas ainda é pouco. “Espero que mais pessoas deixem o carro e usem a bicicleta como o maravilhoso meio de transporte que ela é. A bike é uma grande saída para a cidade”.


Pedalando uma média de 70 km por dia para entregar as tortas do pai, cerca de duas toneladas que carregou na mochila desde maio, Diego calcula que já percorreu 8700 km. Se fosse de carro, os gastos seriam enormes, ele contabiliza: “Com a bike, economizei R$ 4 mil desde o início do ano”.


Segundo ele, a convivência no trânsito com os entregadores de aplicativos tem sido maravilhosa. “No início da pandemia eu me sentia muito incomodado com a situação dos entregadores, ficava mal de ver essas pessoas chegarem até a minha porta para me servir e eu não poder fazer nada por elas. Hoje estou junto e sei muito bem o que eles estão passando. Fico chateado com as condições de trabalho, ruins, mas noto que essas pessoas são muito unidas. Num dia o meu celular apagou e um entregador me emprestou o dele. Está sendo muito bacana entender as dificuldades deles, ajudar e ser ajudado”.


Para Diego, o que poderia melhorar a vida dos ciclistas na cidade é uma coisa simples, mas infelizmente em falta nos dias de hoje: o respeito. Apenas o respeito. “Para entender que a bicicleta é um meio de transporte como qualquer outro, e que a gente pode ocupar uma pista e andar no nosso ritmo sem ouvir buzinas ou reclamações de motoristas. Entender que a bicicleta está aí justamente para ajudar, para melhorar o meio ambiente e o trânsito”.


O caminho é longo, mas ele tenta enxergar pelo lado bom: “Já tem muito motorista com consciência, entendendo que o ciclista tem direito a ocupar uma faixa, de ficar na pista. E é importante também que o ciclista respeite o pedestre e não ande na calçada, é a lei do mais forte e mais fraco. O ciclista tem que cuidar do mais fraco, que é o pedestre, e o motorista tem que cuidar do mais fraco, que é o ciclista. Essa convivência tem que avançar. A gente vê muito pedestre andando na ciclovia, mas acho que é preciso entender esse lado dele, dividindo o espaço e protegendo-o. Tem que respeitar o pedestre que opta pela ciclovia, porque a gente não sabe se é lá que ele se sente seguro”, reflete Diego, dono de uma empatia inspiradora.


A Torta do Pai prossegue em 2021 com toda vitalidade e uma força extra na entrega de bike. Além de Diego, outro ciclista está ajudando a levar as encomendas das delícias feitas por Antônio.

Na Cordilheira dos Andes, em 2018


Apaixonado pelo pedal, esse jornalista esportivo fica sonhando com oportunidades para deslizar com sua magrela por diferentes cenários. Pretende pedalar pelos cinco continentes. Em 2018, ele tirou 40 dias de férias e fez uma cicloviagem do Rio Grande (RS) até Valparaíso, no Chile, em 1.939 km pedalados, via Uruguai e Argentina, pelos Andes, até o Pacífico. Em 2019, foi a vez de fazer Barcelona-Amsterdã, 2028 km. Pedalou na Espanha, na França, Luxemburgo, Alemanha, Bélgica e Holanda, em 29 maravilhosos dias.


“Sinto muita falta da estrada, é um estilo de viagem que me fascina, e agora já estou pensando na terceira aventura, que iria acontecer em abril de 2020 na Nova Zelândia, mas foi cancelada devido à pandemia”. Mas se tudo der certo, um plano B, no Brasil mesmo, vai fazer Diego pedalar uma média de 100 km por dia, durante quarenta dias. Ele pretende ir em maio para São Luís do Maranhão e de lá descer até São Paulo, pedalando por todos os estados do Nordeste. “Espero fazer a Nova Zelândia de bicicleta, mas também quero conhecer e pedalar por todo o nosso país, valorizando o que é nosso”.

Em 2019, em Amsterdã, na cicloviagem de 29 dias por seis países



Vida de Bike é uma parceria do Pro Coletivo e Bike Anjo

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