• Chantal Brissac

Uma família que pedala unida



Melissa Noguchi, Murilo Rodrigues, Ravi e Raul. Esse quarteto vive intensamente a bicicleta em Belém.


A jornalista e empresária Melissa, de 34 anos, começou a pedalar aos sete anos, com os amiguinhos da vizinhança. Ela morava em uma vila, e lembra que no final havia uma ladeira, que virou a plataforma de largada ideal para a criançada se soltar, ganhar impulso e aprender a pedalar. “A gente ia parar numa casa de madeira na frente, porque nem sabíamos frear”, conta, rindo. “Tenho umas marcas no joelho até hoje desse formato meio loucão de pedalar”.

Melissa com a sua bicicleta de rodinhas, primeira etapa do aprendizado infantil


Murilo, arquiteto e urbanista, de 36, também curte a bicicleta desde criança. Mas foi uma exposição sobre o tema, que ele realizou em 2009, que impulsionou suas pedaladas na cidade histórica onde nasceu. Casado com Melissa há nove anos, compartilha com ela a paixão pela bike, que renova os motivos para passeios por Belém e descobertas de lugares próximos, além de trilhas e cicloviagens que fizeram antes de aumentar a família, também já inserida no pedal.


Ravi, de cinco anos, e Raul, de um ano e nove meses, vivenciam o prazer e o movimento da bicicleta desde a vida intrauterina. Melissa pedalou durante as gestações; quando os meninos nasceram, eles passaram a ser transportados em slings e depois nas cadeirinhas.

Primeiro pedal de Ravi, aos quatro meses, no sling

Pedalando com Ravi na cadeirinha e grávida do Raul

Ravi e Murilo na bicicleta; ao fundo, Melissa com amigos

Primeiros ensaios de Ravi na bicicleta


Com o tempo, Ravi estreou na Balance, sem pedais, ótima para treinar o equilíbrio; agora, Raul herdou a bike do irmão, que está começando a treinar em uma magrela de verdade (acima). O casal pretende sair para viagens de bike quando chegar a vacina e os meninos crescerem um pouco mais. “Eles adoram e a gente fica feliz de manter a família unida com esse hábito saudável e sustentável”, diz Mel, como é conhecida pelos amigos. Eles fizeram de bike a Chapada Diamantina e também pedalaram pela Estrada Real, rota histórica que passa por Minas Gerais, Rio de Janeiro e São Paulo.

A viagem pela Estrada Real, rota histórica que passa por Minas Gerais, Rio e SP

O casal em sua primeira cicloviagem, na expedição à Chapada Diamantina


Cicloativistas desde 2011, quando passaram a integrar o movimento Bicicletada Belém, que reúne pessoas para pedalar na cidade, eles se uniram à rede Bike Anjo há cinco anos, participando de forma ativa nas EBAs (Escola Bike Anjo) e eventos em Belém. Também estão à frente do Coletivo ParáCiclo, idealizado por Murilo e Robinson Bahia com o objetivo de organizar, promover e desenvolver atividades, ações e projetos que fomentem cada vez mais a mobilidade ativa, principalmente a bicicleta. “A gente acompanha e cobra políticas públicas, faz geração de dados por pesquisas e cria projetos de educação e intervenção urbana”, explica Mel.

Bicicletada para marcação de ciclofaixa em Mundurucus, em 2013

Atuando como Bike Anjo, Melissa sentiu a necessidade de criar o Pedala, Mana!


Outra conquista foi a implantação do Pedala, Mana!, criado por ela e outras ciclistas para estimular o pedal feminino em Belém. “A ideia surgiu devido ao grande número de mulheres atendidas no EBA, cerca de 70%. O Pedala, Mana! É um braço do Bike Anjo e organiza passeios e encontros ciclísticos, além de palestras e oficinas de mecânica. Nosso próximo passo é implantar o projeto na periferia da cidade”.


Mel e Murilo não param. Para ajudar a melhorar a mobilidade da capital paraense, centrada no uso do carro, eles e o time do Coletivo ParáCiclo fizeram uma mobilização para que os candidatos deste ano se comprometessem com a mobilidade ativa e sustentável. Gravaram vídeos com os candidatos ao executivo para que pudessem expor suas propostas de governo e soluções para os problemas da cidade. “O ParáCiclo também fez uma ampla pesquisa sobre a qualidade das calçadas em Belém, em um projeto idealizado pela organização Mobilize, que buscou mapear as calçadas no Brasil, e Belém ficou em último lugar entre as capitais. A caminhabilidade aqui é horrível, as calçadas não têm arborização, tamanho adequado e são cheias de obstáculos”, observa a jornalista.

A família, esperando Raul

Raul, feliz nos seus primeiros treinos com a Balance


Em relação à bike, ela lembra que houve aumento de 50% de ciclofaixas na cidade, mas elas não têm boa estrutura e não contam com manutenção. “Não temos estímulo do poder público, e a população precisa ser conscientizada. Muita gente vai de carro à padaria e vê o carro como única opção”. O ParáCiclo monitora também a emissão de gases de efeito estufa e luta para restringir o acesso de carros ao rico centro histórico da cidade, hoje bem deteriorado e abandonado.


Para 2021, Melissa espera que a vacina venha logo para que todos consigam sair às ruas e avançar com os projetos em prol de uma cidade melhor. O Coletivo ParáCiclo, com o apoio do Instituto Clima e Sociedade (ICS), deu início à Campanha Belém que Queremos. “A ideia é aumentar e melhorar a estrutura cicloviária e mostrar às pessoas que elas têm direito à cidade, a ocupar as ruas, caminhando e vivendo com segurança e saúde”.

Manifestação de luto por Janice Dias; foto de Elivaldo Pamplona/O Liberal


Um baque recente foi a morte da ciclista Janice Dias, atropelada no final de agosto por um motorista que não prestou socorro. “Ela parou para o carro poder sair da garagem, ele fez uma curva superfechada e passou por cima dela. Já rolou o inquérito todo, mas a Justiça arquivou o caso. Fizemos uma mobilização grande e seguiremos lutando por justiça, porque não foi acidente”.


Melissa e Murilo prosseguem, esperançosos, sobre as duas rodas sustentáveis. Rodas que trazem liberdade, autonomia, alegria e saúde. E esperam ver os filhos pedalando e caminhando em uma cidade melhor nos próximos anos. “A gente luta para ter uma cidade segura para crianças e idosos, porque assim ela é segura para todo mundo”.

Vida de Bike é uma parceria do Pro Coletivo e Bike Anjo

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